Documentos internos e correspondências confidenciais revelam que o departamento jurídico da Fifa concluiu, em caráter sigiloso, que a seleção do Congo escalou um jogador sem condições legais de jogo durante as Eliminatórias. Mesmo diante da irregularidade envolvendo o goleiro Lionel Mpasi — que atuou nas categorias de base da França sem que a mudança de federação fosse concluída —, a entidade máxima do futebol optou por manter o silêncio e permitiu que a equipe seguisse na disputa, garantindo uma vaga inédita na Copa do Mundo após vencer a Jamaica.
O avanço da investigação e os precedentes ignorados
A apuração interna teve início após uma representação formal apresentada pela Nigéria, derrotada pelo Congo na fase anterior. No entanto, o caso foi arquivado sob alegação de questões técnicas. O dossiê analisado aponta que os dirigentes avaliaram diferentes caminhos, desde a punição esportiva até a aplicação de multas, mas prevaleceu a omissão. Casos anteriores semelhantes, como punições aplicadas a Grécia e Bolívia por escalações irregulares em torneios passados, demonstram que a sanção padrão nesses cenários seria a derrota por W.O. e a perda de pontos.
Impacto na Nigéria e repercussão internacional
A eliminação contestada teve reflexos profundos no futebol nigeriano, culminando na renúncia coletiva da diretoria da federação local. O presidente da entidade, Ibrahim Musa Gusau, criticou a postura da organização internacional e cobrou transparência.
“Eles simplesmente ficaram em silêncio e não podem contar a ninguém porque sabem que isso vai provocar uma grave crise para eles”, declarou Gusau, exigindo uma investigação rigorosa sobre o episódio.
Interesses políticos e a articulação na África
A revelação do caso ocorre em um momento delicado para o presidente da Fifa, Gianni Infantino, que busca assegurar apoio político para a sua reeleição. A estratégia de investimentos na África é vista como vital para a sustentação de seu mandato, uma vez que o continente representa um bloco eleitoral expressivo entre os 211 membros da entidade. Paralelamente à apuração, Véron Mosengo-Omba, aliado próximo de Infantino, candidatou-se e venceu a eleição para a presidência da federação congolesa de futebol após a desistência de concorrentes, levantando suspeitas sobre possíveis conflitos de interesse.
Enquanto a Concacaf manifestou preocupação com a integridade das competições e exigiu rigor na análise de elegibilidade de atletas, Infantino se prepara para novos encontros com dirigentes africanos para consolidar sua base de sustentação. Para especialistas nos bastidores do esporte, a sobrevivência política do dirigente depende diretamente do respaldo dos países da região, o que explica a relutância da cúpula do futebol em adotar medidas punitivas severas.
“Infantino precisa da África para sobreviver”, resumiu o ex-dirigente camaronês Prince Zelkifli Rahman Ngoufonja. “Ele não pode se dar ao luxo de perder membros na África.”