“Estamos fartos”, diz um dos participantes nos protestos estudantis em França. “Não há futuro para nós”, diz outro. O pessimismo em relação ao amanhã ecoa em revoltas populares e processos eleitorais ao redor do planeta, alimentando discursos extremistas e reações políticas imprevisíveis que desafiam o establishment global.
O mito da estagnação e o turbilhão global
Embora a sensação de que “nada acontece” motive impulsos aceleracionistas — sobretudo na direita — em busca de rupturas drásticas, a realidade aponta para o oposto. O planeta atravessa simultaneamente conflitos armados, denúncias de limpeza étnica e genocídios que vão da Ucrânia até a Faixa de Gaza, desafiando a estabilidade geopolítica internacional.
Além das guerras, o cenário é moldado pelo avanço exponencial da inteligência artificial, crises econômicas recorrentes, pandemias e reviravoltas eleitorais surpreendentes. Longe de ser um período estático, o momento histórico atual é marcado por uma frenética sucessão de acontecimentos dramáticos de alto impacto.
Excesso de futuros e o entorpecimento digital
O diagnóstico de que falta destino para a humanidade também não se sustenta. Nunca houve tantas alternativas de amanhã à disposição, indo desde cenários de superabundância tecnológica e sociedades em rede até colapsos ecológicos profundos. O verdadeiro entrave não é a escassez de opções, mas sim um volume avassalador de cenários possíveis.
O mal-estar contemporâneo decorre de duas frentes principais. A primeira é a dessensibilização provocada pelas redes sociais, onde a mediação tecnológica afasta as pessoas do sofrimento real. Ao consumir tragédias em telas de celulares, a indignação inicial rapidamente se converte em apatia e desmobilização.
A falência da imaginação política
O segundo fator é uma severa crise criativa que afeta a política progressista, a cultura e as expressões artísticas, restritas muitas vezes a posturas cínicas e reativas. Falta aos campos democráticos tempo mental para propor alternativas consistentes, limitando a atuação política a tentativas de conter a ofensiva adversária.
Garantir prosperidade material é fundamental, mas insuficiente para sanar o vazio existencial da população. Sem propósitos claros para a democracia e para o progresso humano, as sociedades continuam vulneráveis a revoltas motivadas pela ausência de significado moral nas lideranças atuais.