Quando se depara com notícias sobre o El Niño previsto para este ano, a professora aposentada Sandra Motta, 57, sente que “a cabeça não para de funcionar”. Moradora de Canoas, na região metropolitana de Porto Alegre, ela precisou abandonar sua residência em maio de 2024 devido às severas inundações que atingiram o Rio Grande do Sul. O retorno aconteceu apenas em julho daquele ano, encontrando o imóvel tomado por água, lama e sujeira. Temendo novos episódios, ela decidiu vender o imóvel e comprar um apartamento em uma área mais alta, mudando-se para o novo endereço há cerca de dois meses.
O impacto psicológico das enchentes e secas
As enchentes históricas no estado sulista estiveram ligadas ao El Niño, aquecimento acima da média das águas do Pacífico. Agora, um novo ciclo do fenômeno se desenha e pode ser um dos mais intensos da história, conforme aponta o serviço meteorológico nacional do Reino Unido, o Met Office. Para Sandra, a necessidade constante de se precaver alimenta uma preocupação agravada pela falta de perspectivas e ações governamentais. “Essas coisas de não ver perspectiva de o mundo melhorar bate muito forte na gente. A gente sabe o que vai acontecer e vê que nada foi feito para melhorar”, afirma.
Enquanto o Sul enfrentou o excesso de água, trechos da região Norte lidaram com estiagens severas em 2023 e 2024. Dados do Imazon mostram perdas massivas de superfície d’água na Amazônia no período. Na comunidade de Urucury, em Manicoré (AM), a seca isolou moradores, encareceu a locomoção por barcos e destruiu plantações de milho essenciais para a subsistência local. A líder comunitária Jhuacelly Laura Veiga Campos, 42, relata o medo constante de ver a história se repetir mais cedo neste ano. “Vem a ansiedade: ‘Meu Deus do céu, será que vai ser pior?'”, relata.
O fenômeno do estresse climático antecipatório
Esse sofrimento relatado por moradores do Sul e do Norte dialoga com o conceito de estresse climático antecipatório, investigado recentemente por cientistas da Universidade da Califórnia. O estudo, publicado na revista BMJ Mental Health, apontou que indivíduos com histórico de exposição a desastres naturais apresentam níveis elevados de ansiedade relacionada às mudanças climáticas e estresse ao antecipar novos eventos extremos.
Busca por informações e falta de apoio
No Brasil, o temor em relação ao aquecimento das águas do Pacífico refletiu diretamente no comportamento digital. Dados da consultoria Nexus apontam que a média mensal de pesquisas sobre o El Niño no Google disparou 930% entre março e maio, com maior volume de buscas concentrado nos estados da região Sul. Especialistas reforçam que a ausência de políticas públicas preventivas acentua a vulnerabilidade das populações afetadas, tornando essencial o engajamento comunitário e o suporte psicológico para mitigar a sensação de desamparo.
Para lidar com o impacto emocional pós-desastre, Sandra participa dos atendimentos do Projeto Recomeçar, do Hospital Moinhos de Vento. Especialistas ponderam que as reações de temor antecipado muitas vezes funcionam como respostas normais a cenários extremos, mas exigem atenção governamental para que as comunidades deixem de depender exclusivamente de ações emergenciais tardias.