Gaza após três anos de guerra: jornalista relata esgotamento

A jornalista palestina Ghada Al-Kurd relatou que planeja deixar a Faixa de Gaza após três anos enfrentando os impactos do conflito entre Israel e o Hamas. A repórter, que trabalha para veículos internacionais, afirma que a exaustão acumulada e o medo constante superaram qualquer expectativa de melhora imediata no território sitiado.

Rotina sob bombas e retorno parcial das aulas

Há um ano, Ghada descrevia um cenário de extrema escassez, fome e luto. Atualmente, embora a situação da alimentação tenha apresentado alguma melhora, a violência e a tensão continuam presentes na rotina da cidade de Gaza. Um ataque aéreo recente, registrado nas proximidades de seu prédio durante a noite, deixou suas filhas — Fatima e Mari, de 12 e 14 anos — aterrorizadas.

As filhas da jornalista conseguiram retornar às atividades escolares, integrando-se aos milhares de estudantes atendidos por iniciativas educacionais na região. No entanto, o trauma faz com que evitem sair à rua devido ao medo constante de novos bombardeios.

Custo de vida elevado e escassez de recursos básicos

Apesar da trégua negociada pelos Estados Unidos e anunciada no aniversário de dois anos da guerra, o acordo segue paralisado. As Forças Armadas de Israel mantêm o controle de aproximadamente 60% do território, condicionando o avanço do entendimento ao desarmamento do Hamas, enquanto o grupo exige a retirada prévia das tropas.

No cenário humanitário, dados do escritório de assuntos humanitários da ONU apontam que cerca de 2,1 milhões de palestinos continuam sofrendo com deslocamentos forçados e infraestrutura destruída. Embora a disponibilidade de comida tenha crescido, itens fundamentais como água potável e energia elétrica pesam fortemente no orçamento das famílias.

“Precisamos comprar água potável. Uma garrafa de 1,5 litro custa US$ 2 [cerca de R$ 11]”, conta Ghada. Para manter mínimas condições de estudo para as filhas, ela também precisa arcar com custos informais de eletricidade que chegam a US$ 100 semanais. “Preciso de luz no apartamento para as meninas estudarem”, diz. “Quando elas acordam à noite, podem acender a luz e sentir que existe uma vida normal.”

Insatisfação política e busca por um novo futuro

O desgaste atinge também o cenário político de Gaza. Pesquisas recentes indicam queda na popularidade do Hamas, embora a maioria dos habitantes ainda rejeite o desarmamento imediato por receio de novos confrontos. Para Ghada, a população não deseja o controle de facções armadas nem o retorno de antigas lideranças.

“Como cidadã que viveu durante muito tempo sob a Autoridade Palestina e sob o governo do Hamas em Gaza, não prefiro nenhum dos dois no controle”, afirma Ghada. “Precisamos de novos rostos, de novas figuras públicas, de pessoas que realmente possam trazer um futuro melhor para os palestinos.”

Enquanto o primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, mantém a promessa de eliminar o grupo extremista, e autoridades internacionais divergem sobre os próximos passos da diplomacia, a repórter reforça que o tempo de espera esgotou-se. “Hoje estou tentando encontrar uma maneira de sair de Gaza porque não quero mais continuar aqui por muito tempo com minhas filhas. Quero procurar um futuro melhor para elas”, conclui.

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