Os jovens da China encontram em um acadêmico de 54 anos uma referência inesperada diante de um cenário de incertezas, pressões profissionais e exaustão mental. O professor e antropólogo Biao Xiang se transformou em um verdadeiro ídolo para a chamada Geração Z no país asiático, atraindo multidões interessadas em suas análises sobre as angústias contemporâneas e a busca por sentido na vida.
O fenômeno por trás do sucesso
Enquanto a economia e a tecnologia chinesas avançaram rapidamente nas últimas décadas, os jovens enfrentam um panorama marcado por alta competitividade, dificuldades no mercado de trabalho e exigências rigorosas. Nesse contexto, centenas de pessoas se reuniram recentemente em um auditório em Singapura para assistir a uma palestra de Xiang, que abordou temas como a pressão por aprovação social e a necessidade de conexão humana autêntica.
“As pessoas precisam de um ponto de apoio na sua vida. E suas palavras nos fazem sentir que existe alguém que nos entende”, afirmou uma jovem recém-formada que preferiu manter o anonimato.
Desafios estruturais e a ‘maldição dos 35’
O descontentamento juvenil na China reflete transformações sociais profundas e o esgotamento do modelo tradicional de ascensão social. Entre as principais preocupações estão as extensas jornadas laborais, a competitividade extrema e o temor da chamada “maldição dos 35”, limite etário frequentemente imposto em processos seletivos que dificulta a recolocação profissional.
Conceitos para explicar a crise
Para mapear esse cenário, o antropólogo utiliza termos marcantes em suas análises, como “flutuando”, para definir quem trabalha exaustivamente apenas para sobreviver, e “o próximo”, apontando a desconexão com o espaço intermediário entre o indivíduo e o mundo global.
Apesar da forte censura e da delicadeza política do tema na China, Xiang defende o papel da academia na exposição transparente dos problemas sociais. “Todos sabem onde está o problema, mas se recusam a enfrentá-lo”, comentou ele. “Às vezes, observá-lo é doloroso demais, ou eles não sabem como fazer.”
Diretor do Instituto Max Planck de Antropologia Social, na Alemanha, o professor vê sua enorme projeção pública como uma oportunidade válida. Longe de rejeitar rótulos de celebridade digital, ele conclui: “Se alguém me chama de influenciador, tomo como elogio. Porque a verdadeira influência que posso ter é a de fazer com que as pessoas pensem por si próprias.”