Afetando cerca de 619 milhões de pessoas em todo o mundo no ano de 2020, o que representa quase 10% da população global, a dor lombar é um problema extremamente comum. O levantamento, divulgado por um estudo na revista The Lancet, aponta que a incidência cresce conforme a idade avança, alcançando o ápice aos 85 anos. Entre o público feminino, a condição é mais frequente, tendo como principais gatilhos o excesso de peso, o transporte de cargas no ambiente profissional, o tabagismo, quadros de depressão, histórico prévio de lombalgia e comorbidades como o diabetes.
Impacto socioeconômico da lombalgia no Brasil
No território brasileiro, o índice anual de adultos que enfrentam a lombalgia crônica flutua entre 4,2% e 14,7%. Entre os anos de 2012 e 2016, a enfermidade gerou uma média de 100 dias de afastamento do trabalho por indivíduo anualmente, respondendo por aproximadamente 80% dos gastos totais relacionados a esse tipo de desconforto no país. Por causa de sua relevância tanto para o bem-estar individual quanto para a saúde pública, acertar na identificação do problema e aplicar um tratamento assertivo são medidas imprescindíveis.
O papel e a função do disco intervertebral
Conhecida popularmente como a dor na parte inferior das costas que pode irradiar para as pernas, a lombalgia frequentemente tem na hérnia de disco uma de suas causas centrais. O disco intervertebral conta com uma estrutura formada por uma borda cartilaginosa rígida e um núcleo gelatinoso, ambos ricos em água e colágeno. O objetivo principal desses discos é absorver os impactos que ocorrem entre as vértebras, assegurando flexibilidade e movimento à espinha. Com o envelhecimento natural, a estrutura perde hidratação e se debilita, facilitando rupturas que permitem o extravasamento do núcleo contra as raízes nervosas vizinhas. Esse processo costuma atingir a porção inferior da coluna, área submetida a grandes pressões e próxima ao nervo ciático.
Outras origens comuns para a dor nas costas
Apesar de sua alta incidência, a hérnia não é a única responsável pelo incômodo. Com o avanço tecnológico, pacientes chegam aos consultórios exibindo laudos de ressonância magnética antes mesmo de relatarem seus sintomas. Contudo, a médica fisiatra Camila Rodrigues Bressane Cruz (CRM 103.953) ressalta que o exame serve apenas como suporte: “O exame de imagem é importante, porém deve ser complementar aos dados da história clínica e do exame físico. A análise de um exame de imagem isolado, sem considerar o contexto clínico do paciente, pode levar a erro no diagnóstico, uma vez que muitas das alterações descritas em laudos de exames de ressonância, como abaulamentos e protrusões discais, podem não gerar nenhum sintoma.”
Além disso, o desgaste articular nas vértebras e na região sacroilíaca — ligação entre a base da coluna e a bacia —, típico da artrose, assim como a sobrecarga nos ligamentos, infecções e fraturas vertebrais, também provocam o problema. Outro fator é a síndrome dolorosa miofascial, marcada por pontos de tensão na musculatura paravertebral que geram queimação e formigamento, frequentemente confundidos com a dor ciática, embora não apareçam em exames de imagem e exijam um exame físico rigoroso.
A tendinite glútea é mais uma condição que mimetiza o desconforto ciático. Doenças autoimunes, a exemplo da espondilite anquilosante, e metástases ósseas também entram no rol de investigações do especialista. Dessa forma, diante de causas que frequentemente se sobrepõem no mesmo paciente, o diagnóstico nunca deve se apoiar exclusivamente em tomografias ou ressonâncias, tornando a avaliação clínica detalhada o verdadeiro segredo para o sucesso terapêutico.