Um recente estudo internacional pode ter decifrado um dos grandes enigmas da biologia: o segredo por trás da longevidade de Jonathan, a tartaruga-gigante-de-Aldabra considerada o animal terrestre mais velho de que se tem notícia. Com idade estimada em 194 anos, o réptil apresenta marcadores genéticos típicos de envelhecimento em grande parte do genoma, mas exibe uma surpreendente preservação estrutural em áreas específicas que regulam a função mitocondrial.
O papel da entropia de metilação na idade avançada
Publicada na revista científica Science Advances e conduzida por 22 autores de diferentes países, a pesquisa analisou o epigenoma do animal. Como a coleta de sangue representava risco à saúde do réptil, o DNA foi obtido por meio de raspagem de células bucais e comparado ao de outros quatro espécimes da mesma espécie, variando entre 5 e 90 anos de idade. Os cientistas investigaram a metilação, processo químico que funciona como marcações reguladoras no DNA. Com o tempo, essas marcações costumam perder organização, fenômeno conhecido como aumento da entropia de metilação.
“Entropia significa desordem”, disse Clark à Folha. Ele compara o fenômeno a um quarto inicialmente arrumado que, depois de alguns dias de uso, fica cheio de roupas e objetos espalhados. “A metilação é uma marca química adicionada ao DNA que ajuda a regular como os genes são ligados e desligados.”
Surpresa genética e o funcionamento das mitocôndrias
Embora a entropia geral de Jonathan fosse condizente com sua idade avançada, os pesquisadores descobriram que 272 regiões promotoras responsáveis por controlar a atividade genética mantinham níveis de organização comparáveis aos de uma tartaruga jovem de cinco anos. “Jonathan, nesse aspecto, parece muito velho”, diz Clark.
Essas regiões preservadas estão associadas às mitocôndrias, estruturas encarregadas de gerar energia nas células. A manutenção dessa ordem favorece processos vitais como o reparo do DNA e a proteção dos cromossomos, embora os cientistas ainda precisem confirmar se essa característica causa a longevidade ou se é apenas uma consequência.
“Não sabemos se isso é o que o mantém jovem ou se é apenas uma consequência”, afirma.
Perspectivas para a longevidade humana
Especialistas apontam que as descobertas ajudam a compreender mecanismos de envelhecimento compartilhados entre diferentes espécies. A geneticista Mayana Zatz, que investiga centenários no Centro de Estudos do Genoma Humano e Células-Tronco da USP, destaca a importância de analisar o epigenoma.
“A diferença entre você ver só o DNA e ver o epigenoma é que na metilação você vê a expressão, como os genes se expressam, se estão ativos ou silenciados”, afirma.
Com um financiamento inicial de US$ 50 mil, a equipe liderada por Stephen Clark pretende ampliar as investigações com outros animais longevos. O objetivo de longo prazo da Fundação Kallel é identificar novos alvos terapêuticos e testar em humanos medicamentos capazes de combater doenças associadas ao envelhecimento. “Como uma fundação sem fins lucrativos, dependemos de financiamento de doadores.”