Morte em maratona acende alerta e federação cobra regras rígidas

O falecimento do empresário Jair Vieira Junior, aos 53 anos, após sofrer um mal-estar na conclusão da 5ª Maratona de Niterói, colocou em debate a segurança nas provas de corrida de rua no estado do Rio de Janeiro. O episódio gerou discussões entre atletas, treinadores, organizadores de eventos e a Federação Estadual do Rio de Atletismo sobre a necessidade de implementar normas mais rígidas para a realização dessas competições e o controle do preparo físico dos inscritos.

Falta de preparo físico e exigência de índices

Profissionais de educação física apontam que a popularização do esporte tem levado muitas pessoas a se inscreverem em competições de longa distância sem a devida capacitação técnica ou avaliação médica. Especialistas defendem a adoção de índices classificatórios para provas que ultrapassem os 15 quilômetros, visando reduzir os riscos de incidentes cardiovasculares e desidratação severa entre os participantes.

Wallace Barbosa avalia que “Provas com mais de 15 quilômetros deveriam exigir o índice do corredor. Isso é já um filtro importante. É claro que qualquer pessoa pode passar mal, mesmo com índice e bem treinado, mas as chances são bem maiores para quem não está preparado. A maratona tem 42 quilômetros, com uma enormidade de pessoas sem preparo para participar”.

Na mesma linha, André Guilherme destaca a relevância do planejamento prévio e ressalta que “A Corrida da Ponte exige índice, as outras provas longas deveriam exigir também. Priorizo sempre a segurança do corredor. É importante que a pessoa conheça seus limites e entenda que é preciso ter técnica para correr, mesmo que seja pouca distância. E o papel do treinador é saber orientar corretamente essa pessoa. Se ela não tiver apta, não tem que correr”.

Luana Cabral compartilha da mesma preocupação com o aumento expressivo de adeptos e relata que “Muitas pessoas passam mal, inclusive quem treina frequentemente. Eu tenho me preocupado cada vez mais com minha saúde. A corrida virou uma modinha, todo mundo quer ter essa experiência, postar na rede social, não julgo. Mas as corridas estão aumentando exponencialmente, o número de participantes também. É preciso ter muito cuidado com as consequências disso”.

Organização e estrutura de atendimento

A direção da Maratona de Niterói afirmou que o evento cumpriu todas as exigências legais e normativas vigentes, contando com a documentação necessária, autorizações do Corpo de Bombeiros e suporte médico no percurso.

Karen Casalini pontua que “Ou seja, a prova estava toda respaldada em relação à documentação que é solicitada legalmente” e acrescenta que “Uma coisa que eu venho percebendo é a falta de conscientização. É justamente atletas despreparados se inscrevendo em provas. Eu já faço evento desde 2017 e nunca, em nenhum evento, a gente teve tanto atendimento como a gente teve agora na maratona e o tempo nem estava quente”.

A organizadora também destaca que “Em várias outras provas espalhadas pelo Brasil e pelo mundo teve óbito. Em Santos, São Paulo, Minas e em Berlim. Em Berlim, foi um caos de pessoas passando mal. Por que tem tanta gente passando mal nas provas? Porque as pessoas estão se inscrevendo despreparadas, sem consultar um médico antes de participar. Acho que está faltando uma conscientização para essas pessoas”.

Debate sobre o permit e fiscalização

O presidente da Federação Estadual de Atletismo do Rio de Janeiro, Robson Maia, aponta que a entidade defende critérios mais rigorosos de supervisão e protocolos de socorro mais eficientes. Segundo o dirigente, a federação discute com confederações e associações um formato mais preciso para a assistência médica nas competições.

Maia também destaca gargalos na fiscalização e relata que “A federação também vem tentando atuar no entendimento e na conscientização dos organizadores sobre a necessidade de cumprir as regras de segurança”. Ele ressalta ainda que a ausência de mecanismos legais impede que um atleta seja proibido de competir caso decida ignorar orientações médicas, reforçando que “Infelizmente, não há mecanismo legal que proíba o praticante de se inscrever nas corridas. Então, vai depender da avaliação do próprio participante ou do seu treinador”.

Por fim, o presidente critica a exclusão da autoridade desportiva de etapas centrais na liberação dos eventos e pontua que “Quando se fecha os olhos para o cumprimento de lei, fica esse cenário negativo”, enquanto a prefeitura da capital argumenta que emite alvarás mediante rigorosa comprovação de infraestrutura e que intermedeia diálogo com a federação local para viabilizar os custos operacionais.

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