Fim de remédio essencial para epilepsia gera alerta em médicos

O fim da fabricação do Depakote Sprinkle 125 mg, marcado para dezembro pelo laboratório farmacêutico Abbott, gerou forte preocupação entre neurologistas e familiares de pacientes. O medicamento à base de divalproato de sódio é utilizado no controle da epilepsia tanto em adultos quanto em crianças, e entidades médicas alertam que não existe no Brasil nenhuma outra alternativa com a mesma combinação de dose reduzida, tecnologia de liberação retardada e facilidade de administração.

Impacto na rotina de pacientes com dificuldade de deglutição

Em um manifesto conjunto, a Sociedade Brasileira de Neurologia Infantil e a Liga Brasileira de Epilepsia destacaram que a presença de outros compostos com ácido valproico no mercado nacional não soluciona o problema. A cápsula do produto descontinuado contém microesferas que podem ser ingeridas inteiras ou abertas e misturadas a alimentos macios, sem que ocorra perda da liberação prolongada. Essa característica técnica é fundamental para atender indivíduos com disfagia, além de crianças que apresentam deficiência intelectual ou distúrbios comportamentais.

A substância atua isoladamente ou em conjunto com outros anticonvulsivantes, sendo indicada para quadros de epilepsia generalizada e síndromes complexas, a exemplo de Doose e Dravet. Coordenadora do Departamento Científico de Epilepsia da SBNI, a neurologista infantil Kette Valente aponta que o formato também beneficia adultos com autismo ou deficiência intelectual que enfrentam obstáculos para engolir comprimidos tradicionais.

Diferenças farmacológicas e risco de novas crises

As opções remanescentes no mercado brasileiro resumem-se a comprimidos de 250 mg e 500 mg, que precisam ser consumidos inteiros, e a xaropes adoçados que frequentemente sofrem rejeição pelo público infantil. Embora o líquido possa servir de substituto em alguns cenários, a médica ressalta que os perfis de absorção no organismo divergem, pois o Sprinkle libera a substância de forma mais gradual na corrente sanguínea.

A transição gera o receio de desestabilização e retorno das crises convulsivas, quadros que podem provocar acidentes físicos e exigir atendimento de urgência. Outro diferencial apontado pelas entidades é a ausência de carboidratos na fórmula em cápsula, tornando-a ideal para quem adota a dieta cetogênica no combate a epilepsias refratárias.

Preocupação das famílias e justificativa do laboratório

Mães como a empresária Giovanna Uchôa, de 29 anos, já correm para montar reservas para o tratamento do filho Zion, de 3 anos, diagnosticado com a síndrome de Doose. Diante da alta de preços e do aviso de encerramento da produção, ela investiu milhares de reais para garantir suprimento anual, destacando que o formato em microgrânulos evitou a ardência bucal provocada pelo xarope e ajudou a zerar as crises do garoto.

“A gente nunca quer que a crise chegue. Cada dia sem crise para a gente já é muito bom”, afirma.

Procurada, a Abbott declarou que o encerramento da produção ocorre devido à saída do fabricante terceirizado e enfatizou que a medida não tem relação com a segurança ou a eficácia do produto. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária informou que a companhia comunicou a paralisação em junho sob alegação comercial, enquanto as regras sanitárias exigiriam um período maior de manutenção do estoque por se tratar de produto único na categoria. A empresa se limitou a dizer que repassou o aviso de forma antecipada aos órgãos reguladores e recomendou que os pacientes consultem médicos antes de qualquer alteração na rotina terapêutica.

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