Muito antes de os eleitores comparecerem às urnas, o cenário político já dominava o radar dos mercados financeiros brasileiros. Ao longo dos meses, oscilações expressivas na cotação do dólar, na bolsa de valores e nas taxas de juros foram diretamente associadas a debates, declarações de candidatos e aos resultados de pesquisas de intenção de voto.
O reflexo das urnas nos ativos
Essas movimentações ocorrem porque os investidores tentam adivinhar os rumos que a economia tomará na gestão seguinte. Na segunda-feira posterior à apuração do primeiro turno, que indicou Flávio Bolsonaro (PL) na liderança com 47,03% dos votos válidos contra 45,16% de Lula (PT), o dólar registrou queda superior a 4%, encerrando cotado a R$ 5, o patamar mais baixo desde o mês de maio. No mesmo dia, o Ibovespa disparou 7,70%, alcançando sua maior alta diária desde março de 2020 e fechando no recorde de 206.912 pontos.
“Os preços refletem expectativas sobre crescimento, inflação, juros e, no Brasil, sobretudo a trajetória fiscal. A eleição deixa essas variáveis em aberto, e cada pesquisa ou declaração muda as probabilidades de cada cenário”, explica o chefe de investimentos do ASA, Rogerio Freitas.
Impacto das contas públicas e do cenário político
O mercado financeiro costuma sofrer reações intensas porque projeta o impacto que as propostas de governo terão sobre a economia. Enquanto a bolsa reage ao desempenho empresarial e às perspectivas corporativas, a moeda norte-americana responde à percepção de risco e à entrada ou saída de capital estrangeiro.
No entanto, o impacto não se restringe apenas às eleições. Outros eventos políticos também mexem com os ativos, embora a intensidade varie conforme o contexto macroeconômico global.
“Há períodos em que, mesmo diante de escândalos políticos, outros fatores pesam mais, como o fluxo de capital estrangeiro para o país”, afirma Alvaro Maia, banker da StoneX.
“Isso porque havia mais dinheiro circulando nos mercados internacionais, os bancos no exterior estavam mais dispostos a emprestar recursos, as commodities estavam em alta e as ações brasileiras eram negociadas a preços relativamente baixos em relação aos resultados das empresas. Então, a política acabou ficando um pouco em segundo plano”, explica Maia.
Estratégias para proteger o patrimônio
Diante desse cenário de incertezas, especialistas recomendam cautela e planejamento para proteger o patrimônio. A renda fixa surge como uma alternativa sólida para atravessar momentos de instabilidade com maior segurança.
“Em um momento em que temos juros em dois dígitos, a renda fixa está especialmente atrativa. São várias opções, com destaque para os títulos públicos prefixados ou para os fundos de renda fixa”, comenta Maia.
Para quem prefere o mercado acionário, a orientação é manter a disciplina e ignorar o barulho político de curto prazo. A diversificação e o foco no longo prazo continuam sendo as melhores defesas contra turbulências.
“O melhor é manter a estratégia de longo prazo e fazer ajustes na carteira sem agir por impulso. Grande parte do resultado vem da forma como os investimentos são distribuídos”, diz Freitas.
“Diversificar, inclusive no exterior, ajuda a reduzir riscos, enquanto uma reserva de fácil acesso evita que o investidor precise vender ativos em momentos de queda. O tempo é o maior aliado”, completa.