Quem é o estado ausente que fomenta o avanço do crime organizado

Em uma escola municipal situada em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense (RJ), um relato revelador expõe a complexa relação entre os cidadãos e a atuação do poder público nas periferias. Durante uma entrevista na sala de docentes, uma professora afirmou se sentir segura em sua própria vizinhança, a poucos minutos do local de trabalho, mas relatava enorme apreensão na região escolar devido ao domínio de uma facção criminosa.

O conceito de poder paralelo e a visão sobre o poder público

Questionada sobre a diferença entre os locais, a docente fez a seguinte declaração: “É lógico que lá não é perfeito, mas lá a gente vê o Estado minimamente funcionando. Já aqui a gente tem essa questão do poder paralelo que domina o bairro.” O grupo citado era o Comando Vermelho, organização criminosa que controlava o entorno da instituição de ensino.

O ponto que mais intriga nessa percepção é o fato de a própria professora e a escola municipal serem, conceitualmente, extensões da máquina pública. Nas ciências sociais, o termo engloba toda a estrutura administrativa municipal, estadual e federal, abrangendo saúde, educação e forças de segurança.

O papel do estado como provedor de segurança e bem-estar

Ao aprofundar o questionamento sobre qual seria a diferença entre os locais, a entrevistada complementou: “Eu posso chegar no meu bairro sem ter aquele receio, ‘ah, tem tiroteio. Que que tá aquilo acontecendo?’ Seria mais nesse sentido, mais na questão da falta de segurança mesmo.” Para a população, a presença estatal está intimamente ligada à garantia de tranquilidade.

A imprecisão analítica nas pesquisas sobre segurança

Essa visão de que a ausência do poder público fomenta a criminalidade é recorrente tanto no discurso popular quanto em estudos acadêmicos sobre a expansão de facções no Sudeste e no Norte do país. No entanto, muitas análises carecem de precisão ao não definirem exatamente qual esfera ou ação governamental estaria faltando para conter o avanço do crime.

Enquanto cientistas sociais têm a obrigação metodológica de aprofundar diagnósticos e evitar termos vagos, a percepção dos moradores serve como excelente material para formulação de políticas públicas. Afinal, o debate sobre o “estado ausente” exige respostas claras para que o país consiga enfrentar efetivamente os gargalos da segurança pública.

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