Após perder o acesso clandestino aos terminais da Starlink no início deste ano, a Rússia intensificou os esforços para criar sua própria infraestrutura de internet via satélite. O sistema da SpaceX, comandado por Elon Musk, tornou-se indispensável no campo de batalha ucraniano por garantir transmissão de dados em tempo real, comunicação tática avançada e suporte vital para o uso de drones e mísseis.
O papel crucial da conectividade satelital moderna
Em confrontos atuais, a troca imediata de grandes pacotes de informação, como vídeos enviados por VANTs, define o desfecho de missões estratégicas. Qualquer falha técnica, por menor que seja, pode comprometer toda a operação militar no front.
“A Starlink era tão importante que os russos tentaram durante muito tempo usá-la para seus próprios propósitos militares”, afirma à DW Clayton Swope, diretor de defesa e segurança do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS). “A Rússia não tinha nada que pudesse competir com isso.”
Os desafios e o avanço da constelação Rassvet
Para contornar essa desvantagem e diminuir a dependência de tecnologias estrangeiras, o Kremlin aposta na rede Rassvet, cuja palavra significa “aurora” em russo. O projeto aeroespacial é liderado pela empresa Bureau 1440 e já desperta forte apreensão nas forças de segurança da Ucrânia.
No final de março, a companhia russa colocou em órbita seus primeiros 16 equipamentos de banda larga, com capacidade anunciada de até 1 gigabit por segundo. O total já chega a 31 unidades, e o planejamento oficial mira a marca de 292 satélites ativos até 2027.
Apesar disso, especialistas apontam limitações técnicas severas quando comparado aos concorrentes ocidentais. Enquanto os modelos atuais da SpaceX alcançam 100 gigabits por segundo — com previsão de multiplicar essa taxa na próxima geração —, a alternativa europeia OneWeb opera na faixa de 10 gigabits por segundo, posicionando o programa russo na base tecnológica do setor.
Questões operacionais também afetam o cronograma. Enquanto o primeiro lote atingiu a altitude planejada, um segundo lançamento em julho falhou em alcançar a marca esperada, fixando-se entre 300 e 400 quilômetros. Órbitas mais altas ampliam a área de cobertura terrestre, exigindo uma quantidade muito maior de artefatos em movimento para garantir sinal contínuo.
Diante do cenário, Swope adota tom cético sobre a concretização rápida dos planos russos. “A grande questão é se isso acontecerá. Nem sequer é quando”, afirma, destacando falhas completas em alguns equipamentos e janelas de sinal extremamente curtas sobre a região em disputa.
Mesmo com gargalos técnicos e a necessidade de produzir terminais terrestres em larga escala, analistas ressaltam que o sistema não precisa equipar-se à rival americana para gerar impacto tático. Uma infraestrutura mais modesta ainda seria capaz de auxiliar na coordenação de tropas e equipamentos aéreos.
O vice-chefe da inteligência militar da Ucrânia, Vadym Skibitsky, confirmou a aceleração nos lançamentos por parte de Moscou.
“Eles já começaram os lançamentos muito mais rapidamente do que o planejado originalmente. Por enquanto, o sistema só pode operar de forma intermitente, quando um satélite passa sobre nosso território. Quando a Rússia implantar uma constelação completa de satélites, o sistema funcionará como a Starlink. Já há discussões sobre como neutralizá-lo”, afirmou.
Corrida global pelo domínio das comunicações orbitais
A dependência excessiva de uma única empresa privada em cenários bélicos acendeu um alerta geopolítico em diversas potências, impulsionando investimentos bilionários em alternativas soberanas ao redor do planeta.
Enquanto a China desenvolve suas próprias megaconstelações, a União Europeia financia o projeto Iris² e a norte-americana Amazon avança com o Projeto Kuiper. Para o especialista do CSIS, o mercado ainda sofre com a escassez de rivais à altura da companhia de Elon Musk.
“Existe hoje uma dependência global da SpaceX para lançamentos espaciais e para conectividade, como a Starlink. Há essencialmente apenas um concorrente neste momento. É uma empresa europeia, a OneWeb, que não tem nem de longe a capacidade da Starlink”, afirma.
Dessa forma, iniciativas como a russa consolidam o início de uma nova disputa geopolítica voltada inteiramente para o controle das redes de telecomunicação e das vantagens estratégicas associadas a elas no espaço.