El Niño ameaça mais de 30 milhões de crianças no Brasil

Mais de 30 milhões de crianças e adolescentes brasileiros podem sofrer impactos diretos de dois ou mais eventos climáticos extremos impulsionados pelo avanço do El Niño, classificado como um dos mais intensos desde 1950. A advertência faz parte de um levantamento inédito divulgado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância.

Impactos previstos e a necessidade de prevenção

O documento, elaborado pelo Centro de Excelência sobre Crianças e Resiliência Climática situado em Bangcoc, na Tailândia, detalha como fenômenos como secas severas, ondas de calor, incêndios florestais e enchentes ameaçam a saúde, a segurança alimentar, o fornecimento de água, a proteção social e o aprendizado escolar do público infantil.

Ao contrário de catástrofes repentinas, a progressão do El Niño pode ser antecipada com meses de antecedência. Por esse motivo, a organização internacional argumenta que aguardar o colapso dos serviços públicos representa uma estratégia tardia e financeiramente mais custosa.

Como medida preventiva, o órgão recomenda que a administração pública utilize os próximos meses para reforçar estruturas essenciais. As prioridades incluem aprimorar sistemas de alerta precoce, capacitar equipes médicas, atualizar planos de contingência escolares, blindar fontes de abastecimento hídrico, estocar remédios, mapear famílias em situação de vulnerabilidade e estruturar redes de apoio financeiro antes que os desastres ocorram.

Ferramentas de proteção e lições de crises passadas

No contexto nacional, o estudo destaca a relevância do Protocolo Nacional para a Proteção Integral a Crianças e Adolescentes em Situação de Riscos e Desastres, criado em 2025 pelo governo federal com o respaldo do Unicef, integrando áreas como Defesa Civil, saúde, assistência social e direitos humanos.

Para ilustrar os prejuízos da falta de planejamento, o relatório relembra as enchentes no Rio Grande do Sul e a seca histórica na Amazônia, ambas ocorridas em 2024 sob influência do fenômeno climático. As crises deixaram mais de 1,1 milhão de estudantes com as atividades escolares paralisadas.

“O dado meteorológico nos mostra onde pode chover mais ou menos e onde o calor ou a seca podem se intensificar. O papel do Unicef é olhar para o que acontece quando esse extremo chega à vida de uma criança”, afirma Danilo Moura, especialista em clima e meio ambiente do Unicef no Brasil.

“Uma seca pode significar falta de água segura, fumaça, dificuldade para chegar à escola ou ao posto de saúde. Uma enchente pode significar escola fechada, vacinação interrompida ou perda da renda da família. E muitos desses impactos podem ser reduzidos se a preparação acontecer antes da emergência”, completa o especialista.

Riscos setorizados e engajamento digital

A análise mapeou os perigos em cinco frentes principais: saúde, com risco de desidratação e proliferação do mosquito da dengue; alimentação, com ameaça de inflação dos alimentos e desnutrição; água e saneamento, com escassez e contaminação de fontes; educação, com paralisação de aulas; e proteção social, com perda de renda familiar.

“Esperar a escola fechar, o posto de saúde ficar isolado ou uma comunidade perder acesso à água para começar a agir é chegar tarde. Nós já sabemos que há um El Niño forte em curso e conhecemos os tipos de impacto que podem atingir diferentes regiões. Preparar os serviços agora custa menos, permite responder mais rapidamente e, principalmente, evita que a emergência climática se transforme em uma emergência para as crianças”, reforça Danilo Moura.

Para ampliar a conscientização sobre o tema, a instituição tem mobilizado influenciadores digitais e jovens voluntários, como a comunicadora Giovanna Marinho, conhecida como Pitel, que produzem conteúdos para aproximar o debate climático do cotidiano da sociedade.

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