Saúde muscular define prognóstico e mortalidade no tratamento contra o câncer

A massa muscular tem se consolidado como um fator determinante para a preservação da saúde global, exercendo forte influência inclusive em pessoas que enfrentam o câncer. Dados recentes mostram que pacientes oncológicos com qualidade muscular reduzida e alterações em biomarcadores específicos enfrentam riscos elevados de mortalidade e complicações durante a internação hospitalar. O alerta vem de uma investigação conduzida pelo Núcleo de Pesquisas em Terapia Nutricional de um importante centro médico, cujos dados preliminares foram divulgados pela Sociedade Americana de Oncologia Clínica.

Métodos acessíveis para avaliação corporal

Durante a investigação, os cientistas analisaram 104 indivíduos hospitalizados com tumores sólidos. O monitoramento da saúde corporal utilizou dois critérios principais: o ângulo de fase, verificado por bioimpedância, e a proporção entre ureia e creatinina, que sinaliza o catabolismo, fase em que o organismo consome as próprias reservas de tecido magro. A bioimpedância se destaca por ser um procedimento rápido, sem cortes e de custo acessível, capaz de estimar tecidos e fornecer dados sobre a integridade celular.

Por sua vez, os exames laboratoriais de ureia e creatinina figuram entre os procedimentos mais rotineiros na prática médica, estando presentes inclusive no atendimento público. “Hoje já temos um acúmulo importante de evidências mostrando que pacientes com massa muscular mais preservada apresentam melhor resposta ao tratamento oncológico. Eles têm menor risco de toxicidade à quimioterapia, menos fadiga, menos risco de náuseas, vômitos e outros efeitos colaterais. Consequentemente, maior capacidade de aderir ao tratamento”, aponta o nutrólogo Diogo Toledo, coordenador do núcleo de pesquisas e um dos autores do estudo.

O papel imunológico do tecido muscular

O impacto da musculatura vai muito além da força física ou da mobilidade. Investigações realizadas na Universidade de São Paulo demonstraram que mulheres com tumores de mama e baixa reserva muscular apresentam menores chances de sobrevida, independentemente da idade ou da fase da enfermidade. “A massa muscular não exerce apenas função mecânica relacionada à força e à mobilidade. Ela participa também da regulação inflamatória, do metabolismo energético e da resposta ao tratamento oncológico”, esclarece a nutricionista Mirele Savegnago Mialich Grecco, autora do estudo e pesquisadora colaboradora do departamento de Ciências da Saúde da FMRP/USP.

Adicionalmente, o tecido atua ativamente na defesa do organismo. “O músculo hoje é um grande órgão imune”, resume Diogo Toledo. A degradação desse tecido eleva a vulnerabilidade a infecções, cenário crítico para quem lida com a imunossupressão típica das terapias oncológicas. É fundamental destacar que a perda de tecido magro pode ocorrer de forma silenciosa, sendo mascarada pelo excesso de gordura ou retenção hídrica na chamada obesidade sarcopênica.

Estratégias de preservação e prevenção

Diante da dificuldade de acesso a exames de imagem complexos na rede pública, a busca por alternativas simplificadas ganha força. Medidas como a prática de exercícios resistidos, ajuste no consumo de proteicos, eventuais suplementações e cuidados com o descanso noturno são vitais para mitigar o desgaste físico. “Se a gente conseguir falar da importância do músculo de maneira mais simples, será um ganho enorme para os pacientes”, afirma o médico do Einstein. “O músculo não tem valor apenas estético; ele influencia a resposta ao tratamento, a recuperação e a qualidade de vida. Entender isso pode ajudar as pessoas a atravessarem essa jornada tão desafiadora em melhores condições.”

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