A estreia do documentário focado na trajetória e no pensamento de Fernanda Montenegro foi um dos grandes destaques do Festival do Rio. Com direção de Pedro Waddington, a produção exibe a renomada artista aos 96 anos em uma profunda contemplação sobre o envelhecimento, a finitude e a relevância da dramaturgia nacional.
“Narra como se eu já não estivesse mais aqui”, diz Fernanda Montenegro à câmera de Pedro Waddington nos segundos iniciais do documentário que oferece uma janela para os anos mais recentes da atriz.
Estrutura intimista e bastidores inéditos
A obra cinematográfica opta por afastar o formato tradicional de entrevistas com depoimentos estáticos, apostando em registros de bastidores, material de arquivo e na narração em off realizada pela própria biografada. O público acompanha momentos capturados entre uma cena e outra de longas recentes como “Vitória” e “Velhos Bandidos”, nos quais a dama do teatro brasileiro palpita em produções e debate o passar dos anos.
Entre os momentos marcantes da película estão as interações descontraídas com o ator Ary Fontoura durante a espera por gravações. A dupla resgata lembranças sobre melodias de épocas passadas, atuações memoráveis e o encolhimento do ciclo de amizades ao longo do tempo.
Memória afetiva e resgate histórico
O acervo pessoal apresentado na produção recupera imagens de grandes nomes da cultura nacional, como Paulo Autran, Paulo José, Gianfrancesco Guarnieri e Nelson Rodrigues. A montagem também transita por memórias de “Casa de Areia”, obra de 2005, e por registros da leitura de trechos de Simone de Beauvoir realizada no parque Ibirapuera, em São Paulo.
Recepção e exibições futuras
Embora estivesse prevista, a protagonista não compareceu à première devido a uma indisposição de última hora. Mesmo ausente, a artista emocionou os presentes no Cine Odeon e reforçou a importância do registro documental, que pode representar sua última aparição nas telas.
“Quanto mais a gente vive, mais a gente entende a importância de guardar as imagens dos nossos grandes artistas”, disse Ilda Santiago, diretora do Festival do Rio, antes da sessão no histórico Cine Odeon, fazendo coro à mensagem deixada pela biografada.
“Isso que a gente vai ver na tela vai ficar conosco por muitos anos, é algo que vai nos aquecer e nos alimentar por muitos anos e gerações.”
O diretor da película também destacou a vitalidade e a simplicidade da protagonista durante os meses de gravação.
“A Fernanda fala muito de um cinema não glamorizado, sem tapete vermelho. Ela gosta é de jogar, e faz isso ainda hoje muito lindamente. É de um vigor, de uma presença. Uma coisa viva”, declarou Pedro.
Após seguir com exibições na programação do Festival do Rio, o documentário tem lançamento oficial programado para o catálogo da plataforma de streaming Universal+ no mês de dezembro.