Sally Rogers, criadora do modelo Denver, vem ao Brasil em novembro

A principal referência internacional em abordagens lúdicas voltadas ao tratamento de crianças pequenas diagnosticadas com autismo desembarcará no Brasil pela primeira vez em novembro. A cientista americana é uma das criadoras do Modelo Denver de Intervenção Precoce (ESDM), metodologia baseada nas linhas comportamentais e de desenvolvimento.

Agenda no país e atualização do manual

Durante sua passagem pelo território brasileiro, a pesquisadora marcará presença em São José dos Campos, no interior de São Paulo, onde participará de um encontro voltado a profissionais e famílias. Além disso, ela também viajará para Recife para ministrar uma palestra durante o 2º Congresso Internacional Autismo & NDBI, sigla em inglês para Intervenções Naturalistas, Desenvolvimentais e Comportamentais.

No final do ano passado, Rogers e Geraldine Dawson publicaram a revisão das diretrizes do método, originalmente lançado em 2009. Ao longo de mais de quinze anos, a obra se consolidou como manual de referência para pais e especialistas que buscam alternativas lúdicas e familiares para estimular competências sociais e básicas em infâncias de zero a cinco anos, seja em ambientes escolares, clínicos ou no cotidiano.

Em entrevista, a especialista explicou que o avanço da ciência, da cultura e das discussões neuroafirmativas motivou a revisão. “Hoje sabemos mais. Sentimos que era hora de atualizar o modelo ESDM para refletir essas mudanças”, declarou.

Perspectiva neuroafirmativa e foco em potencialidades

A criadora da abordagem também criticou a visão histórica de cura associada ao transtorno. “Acho que a ideia de cura como introduzida por [Ole Ivar] Lovaas em 1989, a ideia de que isso seria possível, permeou a cultura do autismo no passado, especialmente entre pais de crianças pequenas”, afirmou.

“Eu nunca encarei o trabalho com o autismo dessa forma. Eu vinha de toda uma tradição de trabalhar com condições neurodiversas e transtornos do desenvolvimento. Isso faz parte de quem as pessoas são. Existem diferenças cerebrais, diferenças biológicas com as quais as pessoas vêm ao mundo. Como psicóloga do desenvolvimento e cientista, meu objetivo sempre foi promover o desenvolvimento, garantir que crianças pequenas possam aprender o máximo possível daquilo que vai funcionar para elas e que as ajudará em sua vida cotidiana com suas famílias e em suas comunidades”, completou, acrescentando esperar que essa premissa esteja mais evidente no novo manual.

Mudanças no contato visual

Uma das principais transformações desta edição envolve a flexibilização em relação ao contato visual, antes tratado como exigência central para o compartilhamento de atenção. Como muitas pessoas no espectro relatam desconforto sensorial e emocional ao olhar nos olhos de terceiros, a nova diretriz amplia o conceito de atenção compartilhada.

“Pode ser um comportamento difícil porque algumas pessoas com autismo recebem um feedback sensorial desconfortável, um feedback emocional desconfortável”, pontuou a pesquisadora.

“No passado, nós também enfatizamos o contato visual e não analisamos a fundo a ciência sobre com que frequência crianças pequenas fazem contato visual com seus parceiros durante as brincadeiras. A realidade é que, em brincadeiras com brinquedos, crianças pequenas com desenvolvimento típico fazem contato visual menos de 50% do tempo. Elas estão olhando para seus brinquedos, lançando rápidos olhares para seus parceiros. Muitas ações demonstram atenção compartilhada, não apenas o olhar. Sons, gestos, palavras, mostrar algo a alguém, entregar um brinquedo a alguém, alcançar algo que está na mão do parceiro, todas essas são ações de atenção compartilhada”, argumentou.

Dessa forma, o novo guia orienta dar suporte ao contato visual quando ele surgir de forma natural, mas validando também outras formas de comunicação e expressão. A publicação também reforça o uso precoce da Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA) e a valorização dos pontos fortes dos indivíduos desde a infância.

“As intervenções tendem a se concentrar nos problemas. Ao longo dos anos, aprendi muito observando as crianças com quem trabalhei crescerem. Aprendi que os pontos fortes que tinham desde cedo se tornavam as ferramentas que usavam para construir suas vidas na adolescência e na idade adulta. Seus pontos fortes se transformavam em suas carreiras, em seus interesses, no que estudavam na escola, no que compartilhavam com os amigos e no que apreciavam em suas comunidades. Isso é verdade para muitos de nós. Minha carreira é construída sobre meus pontos fortes. Minhas experiências sociais também”, pontuou.

A importância de diagnosticar condições associadas

Participante da criação do conceito de espectro no DSM-5 em 2013, Rogers defende a investigação rigorosa de comorbidades, em vez de atribuir todas as características de uma pessoa exclusivamente ao autismo.

“Agora estou falando de uma opinião pessoal: certamente existe um grupo significativo e numeroso de pessoas com autismo, crianças e adultos, que enfrentam dificuldades profundas relacionadas tanto ao autismo quanto a dificuldades adicionais, muitas das quais nunca foram diagnosticadas. Prestamos um desserviço ao chegar a um diagnóstico de autismo e parar por ali em vez de olhar para o contexto como um todo”, alertou.

“Um diagnóstico de autismo explica apenas duas coisas. Explica dificuldades na comunicação social e explica um padrão de comportamentos repetitivos e uma preferência por consistência e por padrões repetitivos de pensamento e de atividades”, disse, ressaltando que o laudo não contempla questões motoras, sensoriais, cognitivas ou psiquiátricas.

“É só isso que esse diagnóstico explica. Ele não explica atrasos cognitivos. Não explica deficiências sensoriais. Não explica a incapacidade de falar ou atrasos de fala. Não explica todos os problemas motores que as pessoas com autismo podem apresentar. Não explica ansiedade, depressão, fobias, transtornos alimentares, transtornos do sono ou todas essas outras condições, cada uma com sua própria biologia e seus próprios tratamentos”, pontuou.

“Para cada uma dessas outras condições que mencionei, nós temos intervenções eficazes. Mas precisamos trazer essas condições para o quadro geral e incluir as intervenções e os especialistas que podem nos orientar, se quisermos compreender plenamente e ajudar a criança. Não temos o quadro completo quando múltiplas condições estão sendo (mal) compreendidas e tratadas sob um diagnóstico único de autismo”, concluiu.

Por fim, a cientista reforça que o sucesso de uma pessoa não deve ser medido por um laudo médico, mas sim por sua trajetória e bem-estar. “Para mim, o desfecho do autismo não é definido por um diagnóstico médico, mas sim pelo curso de vida da criança e pela qualidade contínua da vida da pessoa: relacionamentos amorosos, amizades e apoio da família, aprendizado contínuo, oportunidades de tomar decisões por si mesma, hobbies interessantes, trabalho gratificante, participação na vizinhança e na comunidade. As diferenças nos ‘desfechos’, ou seja, na forma como esses aspectos de uma vida satisfatória se expressam, refletem a singularidade de cada pessoa, sua biologia individual, sua constituição genética, as interações ambientais que vivencia e suas escolhas e preferências, dia após dia e ano após ano”, finalizou.

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