Pacientes com dengue chegam em UTIs do SUS mais graves do que na rede privada

Adultos acometidos por formas graves de dengue que dão entrada em unidades de terapia intensiva da rede pública possuem uma média de idade inferior à observada na saúde suplementar, contudo manifestam um quadro clínico consideravelmente mais deteriorado. Conforme uma pesquisa veiculada no mês de agosto no periódico científico Journal of Critical Care, um em cada cinco indivíduos necessitou de intubação logo no primeiro dia de internação na rede pública, ao passo que nos hospitais particulares essa proporção foi de quatro para cada 100.

Diferenças estruturais e o trajeto até o hospital

O levantamento foi conduzido por especialistas vinculados ao Einstein Hospital Israelita e ao IDOR (Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino), examinando registros de internações de adultos ocorridos entre 2015 e 2024. A hipótese levantada pelos especialistas aponta que o atraso no acesso ao suporte intensivo na rede pública pode explicar a gravidade acentuada no momento da admissão.

“O que o estudo nos permite afirmar é que os pacientes internados nessas unidades eram mais graves do que os admitidos em hospitais privados”, diz o intensivista Luciano Azevedo, pesquisador do Einstein e autor principal do artigo.

De acordo com o cardiologista Henrique Fonseca, pesquisador do Einstein e coautor do trabalho, o usuário do sistema público habitualmente transita por unidades básicas e de pronto atendimento antes de conseguir o encaminhamento hospitalar, enquanto quem dispõe de convênio médico costuma procurar o pronto-socorro de maneira imediata. “Como a vaga é escassa, ele fica no sistema esperando a regulação. Nesse momento, ele não está no ambiente de terapia intensiva”, afirma Azevedo.

Análise de dados e falência de órgãos

O monitoramento utilizou informações de duas plataformas distintas: o registro UTIs Brasileiras, que contempla tanto a esfera pública quanto a privada, e o Datasus, focado nas internações financiadas ou conveniadas ao SUS. Na primeira base, foram computadas 32.016 internações e 2.593 óbitos. No Datasus, o sistema registrou 11.241 internações e 2.091 mortes decorrentes da infecção.

Embora a idade mediana dos internados na rede pública tenha sido de 50 anos, contra 54 na rede privada, os primeiros manifestaram maiores indícios de falha sistêmica. Medicamentos para estabilização da pressão arterial foram exigidos em 22,4% dos casos nas primeiras 24 horas de UTI no SUS, comparado a 5,3% na rede privada. Já a hemodiálise foi aplicada em 4,7% dos pacientes da rede pública e em 1,3% dos particulares.

Fatores de risco e mortalidade

O risco de morte mostrou-se acentuado entre aqueles que exigiram o uso de vasopressores logo no primeiro dia de assistência intensiva, grupo que registrou uma taxa de mortalidade de 54,6%. O avanço da idade também elevou proporcionalmente a letalidade da doença, cenário associado por especialistas à menor reserva fisiológica e à presença de comorbidades pré-existentes em idosos.

Diante do panorama da doença no país, especialistas reforçam a importância das medidas de prevenção e do monitoramento rigoroso dos sintomas críticos, que costumam surgir no período de transição após o término da febre transmitida pelo vetor Aedes aegypti.

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