Na cozinha eleitoral de Flávio Bolsonaro, a omelete está anunciada: um ajuste fiscal de cerca de R$ 250 bilhões. Os ovos, porém, segundo o candidato, permanecerão intactos. Aposentados terão reajustes acima da inflação, os mais pobres serão protegidos e ninguém que precise do Estado pagará a conta. Falta explicar a receita.
O plano de corte e o impasse social
Segundo reportagem da “Folha de S.Paulo”, a equipe responsável pelo programa econômico estuda conter despesas obrigatórias, alterando a correção de benefícios previdenciários e do BPC e as regras dos pisos da saúde e da educação. As mudanças poderiam integrar uma “Super PEC da Transição”, apresentada entre a eleição e a posse. São medidas em estudo, não decisões já assumidas pelo candidato. Mas atingem justamente as áreas que ele promete preservar.
Flávio respondeu garantindo aumentos das aposentadorias acima da inflação. Sua equipe afirma que o ajuste recairá sobre excessos do governo. A distância entre as duas mensagens é o centro do problema: como substituir a economia buscada nas despesas sociais por outras medidas capazes de produzir o mesmo resultado?
Os desafios do rigor fiscal
Combater desperdícios é uma obrigação de qualquer governo. Para sustentar uma promessa de R$ 250 bilhões, entretanto, é preciso identificar os desperdícios, calcular quanto sua eliminação renderia e apresentar um calendário. “Melhorar a gestão” não é uma rubrica orçamentária na qual se possa lançar qualquer valor necessário para fechar a conta.
O significado real das mudanças
Também convém traduzir o vocabulário dos assessores. Limitar um benefício à inflação preserva, em princípio, seu poder de compra, mas retira os ganhos reais que receberia pela regra anterior. Conter o crescimento de recursos para saúde e educação pode pressionar serviços cuja demanda aumenta. O corte não precisa aparecer como um desconto no pagamento: pode aparecer como uma melhora que deixa de chegar.
O candidato pode rejeitar o estudo de seus assessores. Nesse caso, precisa apresentar a alternativa. O eleitor tem direito de conhecer, antes de votar, a conta que será levado a pagar depois. Se os ovos ficarão intactos, Flávio precisa mostrar de que será feita a omelete.