O verso de Tempo Perdido ganhou um eco melancólico desde que a voz de Renato Russo emudeceu aos 36 anos. Neste domingo (11), completam-se trinta anos da morte do cantor e compositor, vítima de complicações associadas à aids em 1996. Três décadas mais tarde, sua obra segue ultrapassando barreiras geracionais, enquanto antigos parceiros guardam na memória os instantes finais de um dos pilares do rock brasileiro.
A trajetória de renato russo e a legião urbana
Nascido Renato Manfredini Júnior no Rio de Janeiro em 27 de março de 1960, o artista consolidou sua carreira em Brasília. Antes de fundar a Legião Urbana em 1982 — banda que nasceria após sua passagem pelo Aborto Elétrico —, ele já moldava o som que definiria uma geração. Canções icônicas como Eduardo e Mônica, Pais e Filhos, Faroeste Caboclo e Que País É Este eternizaram temas como amor, política, solidão e dramas familiares.
O falecimento do músico ocorreu em seu apartamento em Ipanema, no Rio de Janeiro, logo após a chegada às lojas de A Tempestade ou O Livro Dias, último álbum de inéditas lançado com ele em vida. Em relatos concedidos anteriormente, pessoas próximas reviveram o convívio e o período que antecedeu o triste desfecho.
Memórias dos últimos dias e do rigor artístico
O guitarrista Dado Villa-Lobos recordou a despedida do companheiro de banda, em 12 de outubro de 1996. Após deixar o Cemitério São Francisco Xavier, no Caju, no Rio de Janeiro, seguiu de carro para Mangaratiba, a cerca de 120 quilômetros dali, chorando durante o percurso.
Além da dor pela ausência do parceiro de 13 anos de estrada, Dado guarda o empenho obstinado de Renato nos discos da Legião Urbana. Na fase de produção de Dois, lançado em 1986, o vocalista dividia influências de Paul McCartney e Cat Stevens e desenhava roteiros minuciosos para as faixas, buscando criar um repertório atemporal.
Bastidores da gravadora e a recepção da obra
Responsável por levar a Legião Urbana para a gravadora EMI, Jorge Davidson acompanhou de perto a carreira de Renato, de quem se tornou amigo. Uma das lembranças mais marcantes é a audição antecipada de A Tempestade, em 1996, quando a saúde do cantor já estava debilitada.
Ao perceber as dificuldades na voz do amigo, Davidson perguntou se os vocais ainda seriam refeitos. Renato respondeu que as gravações eram definitivas e que não voltaria ao estúdio. O executivo também guarda um relatório elaborado pelo músico para o álbum Dois, detalhando desde o título até a ordem das faixas.
Por sua vez, o empresário Rafael Borges esteve entre as pessoas mais próximas de Renato nos últimos dias de vida. Foi ele quem pediu ao pai do cantor que permanecesse no apartamento de Ipanema para cuidar do filho, enquanto procurava preservar a privacidade do artista em relação à doença. Quando a notícia da morte se espalhou, a movimentação de fãs e jornalistas em frente ao prédio surpreendeu o pai de Renato. Borges contou ao Globo que precisou explicar a dimensão da comoção provocada pela perda e a importância da obra deixada pelo músico.
Nova cinebiografia e preservação do legado
A história do cantor será levada às telas no filme O Que É Demais Nunca É o Bastante, com direção de Mauro Mendonça Filho. A produção abordará o intervalo entre 1987 e 1996, contando com a chancela de Giuliano Manfredini, herdeiro do artista.
O cineasta obteve acesso a cerca de cem diários pessoais do compositor e pretende retratar seus dilemas, sentimentos e engajamento em pautas como os direitos LGBT e o combate à aids. Dado Villa-Lobos foi convidado para integrar a trilha sonora, com filmagens agendadas para 2027.