Galeria em SP reúne Tarsila do Amaral e arte contemporânea

O circuito cultural da zona oeste da capital paulista ganha um conjunto diversificado de exposições que exploram diferentes linguagens visuais. Distribuídas por dois endereços na rua Fradique Coutinho, em Pinheiros, quatro mostras individuais e coletivas inauguradas pela galeria Almeida & Dale articulam temas que vão do erotismo à passagem do tempo, reunindo nomes históricos e vozes ativas da produção contemporânea.

Conexão entre Tarsila do Amaral e o Japão

Um dos destaques da programação é a mostra “Two Big Footers”, que promove uma aproximação inédita entre pinturas de Tarsila do Amaral realizadas entre 1923 e 1970 e a produção do artista japonês Atsushi Kaga. A ideia surgiu por acaso, quando Kaga esteve na capital paulista para planejar um projeto solo e visitou instituições como o Masp e a Pinacoteca.

Ao se deparar com as criações da modernista brasileira, ele se surpreendeu com a originalidade do trabalho. “Eu não sabia quem era Tarsila. As obras ficavam chamando minha atenção e eu perguntava: ‘Quem é essa pessoa? Isso é incrível!’”, recorda o artista. Diante do acervo sob posse da galeria, a iniciativa transformou-se em uma parceria curatorial.

Para Kaga, existe uma convergência na vivência de criadores nascidos fora do eixo hegemônico da Europa diante das regras tradicionais da história da arte. “Nós não somos da Europa, então como podemos jogar esse jogo?”, reflete. A partir dessa premissa, ele adotou a lógica do modernismo brasileiro para reelaborar suas próprias memórias em Tóquio, marcadas por mangás e videogames. O japonês define sua metodologia como antropofágica: “É pegar qualquer coisa que você quiser, comer e digerir, e então transformar em algo seu”.

O erotismo e o espaço do ateliê

Na individual “Quarto de Máscaras”, a artista Maya Weishof investiga as dinâmicas de privacidade e exposição a partir do cotidiano criativo. Suas composições retratam o ambiente de criação como uma espécie de palco teatral com perspectivas instáveis e figuras enigmáticas.

“Eu comecei a pensar no artista como sujeito, no corpo dentro do ateliê”, explica a pintora. A artista ressalta que o erotismo presente nas telas vai além da nudez literal. “A pintura, para mim, também é um ato erótico”, ressalta Weishof, distanciando sua proposta do apelo pornográfico. Ao estruturar os planos visuais com colagens e sobreposições, ela busca recriar uma lógica onírica: “Eu queria que lembrasse sonhos”, diz. “Quando a gente sonha, parece que o lugar está meio errado”.

Tempo e escultura na obra de Felipe Cohen

Em “O Parado das Coisas”, Felipe Cohen apresenta relevos, esculturas e composições em pedra e madeira. O título da exibição, emprestado da literatura de Guimarães Rosa, sintetiza o esforço de evocar o dinamismo por meio de elementos estáticos.

O conflito é traduzido em obras como a escultura “Cachoeira”. “O assunto da exposição é um pouco esse: a impossibilidade de retratar o movimento com essas mídias, que já são tão duradouras como pintura, escultura, relevo”, pontua Cohen. Para ele, a fluidez hídrica carrega esse dilema material: “A água é uma espécie de escultor da natureza porque, por onde ela passa, ela realmente esculpe as pedras”.

Ironia e provocação com Victor Arruda

Completando a programação, a retrospectiva “A Tragédia e o Escárnio” revisita 40 anos de trajetória de Victor Arruda. Aos 80 anos, o pintor articula sexualidade, memória e crítica política sob um viés gráfico e mordaz, caracterizando seu método como um “labirinto”, um “jogo de quebra-cabeças” e um “jogo de memórias”.

Ao definir seu percurso artístico como uma “aventura muito grosseira, muito crua” e “muito indecente”, Arruda enfatiza o orgulho de produzir “pinturas horrorosas” para confrontar temas complexos por meio do choque estético. “Eu gosto enormemente quando as pessoas riem do meu trabalho”, comenta. “Gosto especialmente quando elas riem debochando.”

Serviço

As quatro exposições permanecem abertas à visitação com entrada franca até o dia 24 de outubro na Galeria Almeida & Dale (unidades nos números 1360 e 1430 da Rua Fradique Coutinho, em Pinheiros). O atendimento ao público ocorre de segunda a sexta-feira, das 10h às 19h, e aos sábados, das 11h às 16h.

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