Neandertais utilizaram madeira para produzir armas e diversos utensílios domésticos

Para os neandertais que ocuparam durante gerações uma caverna na atual Catalunha (nordeste da Espanha), a Idade da Pedra talvez pudesse ser igualmente chamada de Idade da Madeira. Pesquisadores acabam de revelar a presença de uma grande variedade de utensílios domésticos, armas e até possíveis bandejas e quebra-ventos feitos com a matéria-prima, detalhando uma versatilidade artesanal que não costuma ser associada a esses primos extintos da humanidade.

As descobertas vêm do sítio conhecido como Abric Romaní, a cerca de 50 km de Barcelona, e estão descritas em artigo que saiu na última quarta-feira (7) na revista especializada Science Advances.

Liderada por Palmira Saladié, do Instituto Catalão de Paleoecologia Humana e Evolução Social, a equipe responsável pelo estudo identificou centenas de objetos e fragmentos de madeira no abrigo rochoso, com idades estimadas entre 62 mil anos e 40 mil anos.

Pesquisadores escavam artefatos de madeira com cerca de 50 mil anos em caverna da Espanha
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Gerard Campeny/Iphes-Cerca

Trata-se da época imediatamente anterior à chegada dos seres humanos anatomicamente modernos (Homo sapiens) à Europa Ocidental, quando aquela parte do continente era dominada pelos neandertais (Homo neanderthalensis). Os artefatos de pedra encontrados anteriormente no sítio arqueológico espanhol se encaixam na cultura material típica desses parentes próximos da humanidade.

Durante muito tempo, acreditou-se que, talvez por razões cognitivas, os neandertais seriam bem menos versáteis, na escolha de matérias-primas e na diversidade de utensílios que fabricavam, do que o H. sapiens.

Alguns pesquisadores chegaram a propor que quase todos os artefatos que esses hominínios fabricavam eram feitos de pedra, com exceção de cabos de madeira para lanças usadas apenas a curta distância, em modalidades de caça “corpo a corpo”, ou seja, não seriam arremessadas em alvos distantes. Uma maior variedade de matérias-primas e instrumentos, incorporando tanto diferentes tipos de madeira quanto ossos, dentes e chifres de animais, só teria se tornado comum com os seres humanos de anatomia moderna.

Entretanto, nas últimas décadas, diversas pesquisas andaram derrubando esse cenário e indicando uma versatilidade considerável na tecnologia neandertal.

No caso do sítio catalão, Saladié e seus colegas puderam contar também com condições geológicas favoráveis à preservação dos pedaços de madeira, direta ou indiretamente. Isso sugere que as conclusões anteriores sobre as supostas limitações tecnológicas dos neandertais podem estar mais ligadas a questões de preservação (já que a madeira se decompõe) do que às habilidades intrínsecas da espécie.

No Abric Romaní, um fator que fez a diferença na preservação dos artefatos é a deposição de carbonato de cálcio das rochas, por causa da umidade, num processo denominado incrustação travertina. (É nesses contextos que se forma o travertino, pedra apreciada pelos arquitetos e designers.)

Conforme o mineral se precipitava sobre os pedaços de madeira, ele ia formando uma espécie de molde oco, que replica a forma original das estruturas mesmo após a decomposição da madeira propriamente dita –às vezes, até a estrutura das células vegetais chegou a ficar preservada. Além desses moldes, os pesquisadores encontraram uma grande quantidade de pedaços de madeira parcialmente chamuscados nas fogueiras que os neandertais acendiam no abrigo rochoso.

Concepção artística mostra neandertais com artefatos de madeira há cerca de 50 mil anos
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Hugo Prades/Iphes-Cerca

A maior parte dos artefatos foram feitos com pinheiro-de-riga (Pinus sylvestris), abundante na região durante a Era do Gelo, embora os pesquisadores também tenham identificado outra espécie do grupo das coníferas, o junípero (Juniperus). Foi com essa segunda matéria-prima, usando a casca cuidadosamente arrancada e cortada, que foram feitos alguns objetos finos, de forma oblonga, medindo entre 50 cm e 35 cm de diâmetro.

Levando em conta objetos semelhantes em culturas modernas de caçadores-coletores, os pesquisadores propõem que os neandertais os utilizavam como bandejas ou mesmo como pás rudimentares, podendo tanto carregar alimentos como retirar brasas ou cinzas das fogueiras.

Ainda mais intrigantes são diversos exemplos de pedaços de pau, alguns mais grossos, outros mais finos, que aparecem em associação próxima, às vezes compondo “cruzetas”, que dão a impressão de estruturas de reforço. De acordo com os pesquisadores, poderiam ter sido usados para montar suportes ou mesmo quebra-ventos, protegendo fogueiras e pessoas de correntes de ar.

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Outros objetos identificados pela equipe de Saladié lembram os encontrados em alguns outros sítios com ocupação neandertal. Há possíveis lanças ou dardos e bastões que seriam usados para escavar o solo. Mas os pesquisadores também encontraram um artefato de feição muito mais inusitada, com um cabo e uma ponta rombuda que se projeta dele num ângulo de 90 graus.

A ideia é que se tratava de uma clava ou tacape —um tipo de arma que, embora seja retratado com frequência nas mãos de “homens das cavernas”, na verdade é bastante raro no registro arqueológico mais recente.

Os pesquisadores também chamaram a atenção para a escolha cuidadosa do tipo de madeira —o pinheiro usado combina maleabilidade e durabilidade, entre outras virtudes como matéria-prima.

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