Putin amplia palácio em Sochi em meio a sigilo militar

Imagens de satélite, processos judiciais e ofertas de trabalho com regalias atípicas revelaram uma reestruturação profunda e confidencial na residência oficial do presidente russo, Vladimir Putin, às margens do mar Negro. O complexo de Bocharov Ruchey, situado no balneário de Sochi, passa por uma reconstrução quase total, ganhando proporções muito superiores às da estrutura original sob forte esquema de segurança.

Histórico de poder e ameaça de drones

O imóvel tem relevância histórica e já acolheu líderes soviéticos como Nikita Khrushchev e Leonid Brezhnev, além de Boris Ieltsin após a dissolução da União Soviética. Putin frequenta o local desde antes de sua primeira posse presidencial, em maio de 2000, transformando o espaço em palco frequente para reuniões com chefes de Estado.

Em 2008, o complexo foi formalizado como residência presidencial de Estado. A designação conferiu prerrogativas legais para que o líder russo pudesse “se hospedar, trabalhar, morar e exercer todas as suas funções, inclusive a de comandante supremo das Forças Armadas”, como definiu Vladimir Kozhin, então chefe do Departamento de Administração de Propriedades da Presidência da Federação Russa.

Apesar de ter viajado a Sochi 24 vezes em 2021, o líder do Kremlin esteve na cidade litorânea em apenas duas ocasiões entre 2024 e 2025. Esse recuo coincidiu com o aumento das investidas de drones ucranianos no litoral russo. Mesmo assim, as demolições avançaram em 2024 sem anúncio público, dando lugar a grandes escavações em 2025 e novos edifícios no outono de 2026. Paralelamente, o Serviço Federal de Proteção da Rússia (FSO) estabeleceu um perímetro de segurança superior a 3 km² ao redor do imóvel.

Contratos de defesa e disputas na Justiça

Embora as autoridades mantenham silêncio sobre o projeto, processos judiciais entre prestadoras de serviço revelaram a existência de um acordo estatal da área de defesa sob o código 2327202903572000000000000. A sequência numérica indica que o termo foi firmado em 2023, com vigência até 2027, tendo o próprio FSO como contratante.

A principal responsável pelas obras é a TSI Group, registrada na Crimeia anexada. Ações movidas por subcontratadas expuseram atrasos por parte do instituto de projetos Voenmorproekt-30, de Sebastopol, além de falhas estruturais registradas na edificação das paredes da chamada “casa principal”.

Por outro lado, o anexo Bocharov Ruchey-2, erguido por ocasião dos Jogos Olímpicos de Inverno de 2014, foi mantido intacto. O espaço ainda é utilizado para compromissos de alto nível, como o encontro de Putin com Rafael Grossi, diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), ocorrido em 2024.

Recrutamento com piscina e pagamento em dinheiro

A necessidade de mão de obra mobilizou anúncios em plataformas de emprego e redes sociais voltados a carpinteiros, armadores e pedreiros. As publicações deixavam evidente a peculiaridade da obra:

“Uma residência está sendo construída”, informava uma publicação, alertando para “Bocharov Ruchey – acesso controlado.” Outro anúncio ressaltava que “A instalação é estratégica.”

As exigências de segurança e as condições de contratação se destacavam nas postagens:

  • Em janeiro de 2025, uma vaga urgente para construir um prédio de dois andares citava “em uma área de acesso restrito, com entrada mediante autorização” e ofertava remuneração em dinheiro vivo.
  • Inicialmente, era obrigatório ser cidadão russo sem antecedentes: “É necessário passar por uma verificação de antecedentes”.
  • Posteriormente, trabalhadores de Belarus, Cazaquistão e Quirguistão passaram a ser aceitos, recebendo refeições diárias e estadias que incluíam alojamentos “em um alojamento com piscina”.
  • Havia preferência por grupos fechados “com engenheiro e encarregado próprios”, embora diaristas também fossem admitidos.

Um dos recrutadores tranquilizava os interessados afirmando que “A fiscalização técnica não é rígida” e que “Os serviços de segurança interna da Rússia acompanham o fluxo de dinheiro, então tudo é correto e transparente.” Já em 2026, com foco em acabamentos elétricos e hidráulicos, os comunicados destacavam que o local seguia com “acesso restrito” e demandava profissionais qualificados: “O volume de trabalho é muito grande, precisamos de muita gente, mas tem que ser gente especializada”.

Conexões com outras propriedades estatais

A TSI e a holding Transstroiinvest mantêm um longo histórico de contratos federais. A construtora já esteve associada à obra de outra residência em Oliva, na costa sul da Crimeia, descrita em processos judiciais como uma “residência presidencial”.

Além das propriedades de lazer e trabalho do governo, a empresa atua na recuperação de estruturas em áreas ucranianas ocupadas, como a reforma do cinema Pobeda, em Mariupol. Entre 2022 e 2025, a TSI acumulou 54 contratos voltados à reestruturação do centro infantil internacional Artek, somando cerca de US$ 330 milhões (aproximadamente R$ 1,65 bilhão). Representantes da construtora, do Kremlin e empresários ligados à operação não se manifestaram sobre as intervenções em Sochi.

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