Claudio Lottenberg minimiza negacionismo ao mirar Saúde

Apontado como um dos nomes cotados para assumir o Ministério da Saúde em um eventual governo liderado por Flávio Bolsonaro, o médico Claudio Lottenberg vem chamando a atenção ao tentar equilibrar um discurso estritamente científico com a defesa de concessões a posturas negacionistas adotadas no passado recente.

Promessa técnica diante do histórico político

Apesar de seu expressivo currículo acadêmico — que inclui doutorado em oftalmologia pela Escola Paulista de Medicina —, Lottenberg defende a viabilidade de conduzir uma pasta de forma “técnica, médica” e sustentada em uma gestão “baseada na qualidade da informação, que é a ciência”, mesmo no contexto de uma aliança com o bolsonarismo. A indicação oficial para o cargo ainda não ocorreu, mas o diálogo em torno do seu nome já movimenta os bastidores políticos.

Ao avaliar o enfrentamento da crise sanitária provocada pelo coronavírus sob o comando de Jair Bolsonaro, marcado por entraves à vacinação e estímulo a tratamentos ineficazes, o especialista optou por adotar um tom conciliatório que gerou forte ceticismo. Em declaração recente, ele tentou contextualizar o cenário vivido naquele período:

“Nós fomos assolados por um fenômeno que a gente não imaginava que poderia acontecer”, disse. “Nesses momentos, as pessoas nem sempre têm as melhores ferramentas para tomar decisões. Eu prefiro deixar isso como capítulo superado.”

O negacionismo como estratégia e identidade de grupo

A leitura de que houve mera ausência de “ferramentas para tomar decisões” ignora evidências de que a postura do governo federal seguiu um cálculo deliberado, espelhado na retórica política internacional de figuras como Donald Trump. Em vez de erro circunstancial, a rejeição a medidas preventivas e a relutância contra vacinas consolidaram-se como marcas de pertencimento ideológico.

Esse fenômeno ganha contornos ainda mais graves ao convergir com outras bandeiras contrárias à evidência científica, como o descrédito em relação às mudanças climáticas. O avanço desse tipo de mobilização coletiva continua a gerar impactos graves e mensuráveis na saúde coletiva, incluindo o ressurgimento de surtos evitáveis de doenças já controladas no passado.

Os riscos de um diagnóstico equivocado

A crença de que setores técnicos esclarecidos conseguiriam domesticar ou conduzir um projeto de poder com essas características remete a ilusões clássicas de moderação. Ao tentar relevar os equívocos deliberados da gestão da pandemia, o projeto de conciliação parece partir de um diagnóstico falho, tornando incerta qualquer perspectiva de liderança fundamentada no rigor científico.

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