Fé e respeito no Círio de Nazaré: evangélicas participam da festa

O Círio de Nazaré, maior evento católico da América Latina, contou com a participação de fiéis evangélicas na tradicional ciclo-romaria rumo a Belém, destacando um movimento de convivência pacífica entre diferentes vertentes cristãs na região Norte.

Diversidade de crenças na ciclo-romaria

A professora de educação especial Vera Lúcia Souza, 53, pedalou 50 quilômetros para homenagear Nossa Senhora de Nazaré. No mesmo grupo de ciclistas estava a capelã Cineiry Cardoso Lima, 45, que pertence a uma igreja batista. Enquanto a visão católica venera Maria, a doutrina protestante rejeita a prática por considerá-la idolatria, mas o grupo demonstrou harmonia durante o percurso que terminou em frente à Basílica de Nazaré.

“Mas a gente aprende a honrar a fé das pessoas”, disse Cineiry Cardoso Lima.

Cultura paraense e o crescimento evangélico

Reconhecido mundialmente ao lado de celebrações como as de Guadalupe, no México, o Círio vai além da religiosidade, integrando profundamente a identidade e a cultura do Pará. O cenário ocorre em um contexto onde o Norte registra a maior proporção evangélica do país, com 36,8% da população nessa faixa, conforme dados do Censo 2022. Em Belém, onde a Assembleia de Deus foi fundada em 1911, cerca de 30% dos habitantes seguem essa fé.

Histórico de convivência e tolerância

Conflitos abertos ou manifestações contrárias à festividade são raros na história recente da celebração, embora algumas igrejas adotem posturas de distanciamento, enquanto outras colaboram com a distribuição de água aos romeiros. Para o motorista Carlos Santos, 34, a ocasião também serve para evangelizar de maneira branda, sem imposições agressivas sobre o papel de Maria na teologia cristã.

“Mas ninguém chega evangelizando de uma forma agressiva. Se a pessoa dá abertura, aí eu falo. A gente só prega a verdade: Maria foi uma mulher honrada, e só. Santificado mesmo, só Deus”, afirmou Carlos Santos.

Outras participantes reforçaram a importância da empatia mútua. A esteticista Luiza Gomes, 53, seguidora da Congregação Cristã do Brasil, ressaltou que a convivência pacífica é essencial. “A gente quer que a nossa religião seja respeitada, então tem que respeitar a do outro”, declarou. A capelã batista Cineiry reiterou que a postura reflete o princípio do amor ao próximo, contando inclusive com o apoio de lideranças religiosas locais. No mesmo sentido, a agente comunitária de saúde Lucilene Pinheiros, 53, definiu o evento como o equivalente local ao Natal, onde “o Círio é o Natal paraense, todo mundo se sente acolhido”.

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