Casos de câncer de estômago devem crescer no Brasil até 2028

O Brasil caminha para um novo ciclo de expansão nas ocorrências de câncer de estômago. As estimativas mais recentes do Instituto Nacional de Câncer (Inca) projetam cerca de 22,5 mil novos diagnósticos anuais para o triênio iniciado em 2026 — um acréscimo de mais de mil registros por ano na comparação com períodos anteriores, que previam 21,2 mil (2020-2022) e 21,4 mil (2023-2025). O avanço da patologia preocupa a comunidade médica, sobretudo pelo histórico de alta letalidade: com taxa de mortalidade acima de 60%, o tumor gástrico ceifou 14,9 mil vidas em 2024, mantendo um patamar crítico que ultrapassa 12 mil mortes por ano há duas décadas.

O papel da bactéria H. pylori e o saneamento básico

Principal vetor para o surgimento do câncer gástrico no planeta, a bactéria Helicobacter pylori (H. pylori) responde por 78% da carga dessa neoplasia no país. A transmissão do microrganismo está diretamente atrelada a deficiências em infraestrutura sanitária e condições precárias de habitação, atingindo em maior escala grupos vulneráveis.

“A contaminação ocorre sobretudo pelo contato da água com dejetos. Se analisarmos, por exemplo, comunidades que vivem à beira de córregos poluídos, é muito provável que a maioria esteja com a bactéria”, explica o endoscopista e gastroenterologista Ismael Maguilnik.

De acordo com o gastroenterologista James Ramalho Marinho, da Federação Brasileira de Gastroenterologia, a dimensão da contaminação desafia a saúde pública. “Estima-se que 70% da população brasileira tenha infecção com H. pylori. Isso é apenas uma estimativa, o sistema público não tem condições de oferecer endoscopia para todo esse contingente, nem exames menos invasivos”, explica.

Evolução silenciosa e identificação tardia

A progressão do quadro gástrico costuma ocorrer sem manifestações clínicas evidentes nas etapas iniciais. Uma vez instalada no estômago, a bactéria desencadeia a chamada cascata de Pelayo Correa. Esse processo inflamatório tem início com uma gastrite crônica, evoluindo para atrofia da mucosa, metaplasia intestinal — momento em que o revestimento gástrico se transforma e passa a se assemelhar ao tecido intestinal —, displasia e, em alguns casos, adenocarcinoma gástrico, o tipo de tumor mais prevalente no órgão.

“O câncer de estômago não causa sintomas a grande parte dos acometidos. As pessoas chegam ao consultório suspeitando de anemia, problemas gástricos menos relevantes, e já têm o quadro avançado”, afirma Marinho.

Desafios de detecção e resistência a antibióticos

O combate à bactéria esbarra na limitação de métodos diagnósticos simples na rede pública. O exame endoscópico não atende à demanda em massa, enquanto alternativas fecais apresentam taxa relevante de falsos negativos. Médicos defendem a adoção de um teste respiratório não radioativo baseado em carbono 13.

“Essa é uma luta nossa para tentar convencer as autoridades, seria um grande recurso e se trata de um procedimento não invasivo. Fazer endoscopia em toda a população é um sonho quase impossível”, diz Maguilnik. Conforme informado pelo Ministério da Saúde, não existe até o momento solicitação para inclusão desse exame na Conitec.

Além da triagem, a conduta terapêutica enfrenta barreiras. O protocolo tradicional recorre a inibidores de acidez combinados a antibióticos — como claritromicina, amoxicilina, metronidazol ou tetraciclina —, mas a resistência bacteriana crescente obriga cautela médica para evitar medicações ineficazes.

“Os antibióticos constituem a ferramenta que temos por hora, mas para isso precisamos encontrar os pacientes antes da metaplasia e da neoplasia”, diz Maguilnik.

Influência do estilo de vida e comorbidades

Embora a infecção biológica seja a causa primordial, hábitos cotidianos e condições crônicas potencializam o perigo de degeneração celular. O aumento da obesidade na população adulta brasileira, o fumo, a ingestão de álcool e cardápios carregados de ultraprocessados formam um ambiente propício para a doença.

“Esses alimentos têm uma grande quantidade de sal e defumados, agressores do tecido gástrico. Portanto, nem sempre a H. pylori vai resultar no câncer sozinha, ela vai ter como aliados os hábitos ruins que o sujeito adquire ao longo da vida”, explica Maguilnik.

“Sem controlar a infecção, não vamos diminuir o câncer gástrico. É preciso também conscientizar as pessoas sobre o consumo de sal, de ultraprocessados, de álcool e cigarro. Ou os números continuarão em alta”, afirma Marinho.

Diretrizes de prevenção e novidades na assistência

Diante do cenário, especialistas orientam que indivíduos com histórico de neoplasia gástrica na família iniciem o rastreamento profilático a partir dos 30 anos. Para a população sem

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