Logo após a transladação do Círio de Nazaré, a programação religiosa em Belém abre espaço para a chamada “transviadação”, apelido carinhoso usado pelo ativista Beto Paes no palco da tradicional Festa da Chiquita. O evento teve início neste sábado (10), aguardando rigorosamente a passagem da estátua de Nossa Senhora de Nazaré pela avenida como sinal de respeito aos romeiros.
Resistência e cultura pop no coração de Belém
Montada em frente ao Theatro da Paz, bem no epicentro do circuito religioso, a festividade funciona como uma versão em miniatura de uma Parada LGBTQIA+ recheada de ícones católicos. Com leques, montações e forte militância, o evento entrega atrações como o tradicional concurso de drag queens, onde competidoras disputam os aplausos da plateia na base da bateção de leque. Idealizada há cinco décadas, a celebração homenageia em seu nome a clássica marchinha de Carnaval eternizada na voz de Caetano Veloso.
Para o antropólogo Milton Ribeiro, pesquisador da Universidade Federal do Pará, a Chiquita fica “no ponto nervoso de todas as manifestações possíveis” do Círio e talvez seja “a grande representação das distorções, das assimetrias e das contradições de Belém”.
Entre o sagrado e a devoção popular
A fusão entre o profano e o sagrado define a identidade do encontro, acolhendo fieis de diversas origens. A drag Glenda Aquilla, de 44 anos, resume bem o espírito do evento ao declarar que “A Chiquita acolhe todas as tribos LGBT e um pouquinho mais, não tem preconceito”.
Mesmo reconhecendo que seu estilo visual chamativo nem sempre é bem-aceito em redutos cristãos, Glenda mantém uma relação profunda com a festividade religiosa e reforça sua devoção inabalável:
“Essa mulher é a coisa mais importante da minha vida, uma santa milagrosa já me ajudou muito”, afirma. “A gente tem um respeito absurdo por ela. É a mãe de Jesus, e o nosso Deus é tão maravilhoso que não julga ninguém. As pessoas deveriam ter consciência de que o respeito é a melhor coisa do mundo.”
A força da corda e o reconhecimento oficial
A intensidade do Círio também mobiliza participantes como a drag queen Savanna, de 26 anos, que há meia década enfrenta a concorrida disputa pela corda principal da procissão de domingo. Para ela, o ritual exige entrega total, muitas vezes sem sapatos para evitar perdas na multidão: “A gente não consegue se mexer na corda. Vai a pessoa maior atrás, e a menor fica abaixo, na altura dos seus peitos. Só assim pra encaixar um no outro. Por andares assim, é incrível, acontece união.”
Apesar de não integrar oficialmente a liturgia da Igreja Católica, a Chiquita garantiu seu espaço no dossiê que elevou o Círio à categoria de Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade em 2013, sendo catalogada como um bem associado ao ciclo festivo amazônico.
Para Jessica Marajoara, de 45 anos, a celebração cumpre um papel fundamental de afirmação: é uma oportunidade “de dizer que as pessoas LGBT existem, sim, e muitos católicos têm que respeitar isso”.
A atmosfera mística da temporada envolve toda a plateia, preparando muitos frequentadores para virar a madrugada e acompanhar a procissão de domingo. Histórias de superação familiar e pedidos atendidos pela virgem se misturam à emoção de agnósticos, como o médico geriatra Milton Crenitte, de 40 anos, que resume o impacto do evento: “Não acredito em nada e acredito em tudo, mas na hora que passa a santa eu reparo na reação das pessoas e me empolgo com a fé do povo.”