Novas revelações extraídas dos cadernos da cristalógrafa britânica Rosalind Franklin reforçam a excelência e a primazia de sua investigação sobre a molécula da hereditariedade genética. O material histórico coloca novos pingos nos is sobre a famosa chapa de raio-X do DNA que viabilizou decifrar a icônica dupla hélice.
A controvérsia da imagem 51 e a apropriação por Watson e Crick
A famigerada imagem 51 do DNA, produzida por Franklin no King’s College em parceria com o pós-graduando Raymond Gosling, foi observada por James Watson sem o consentimento dela. O pesquisador americano encontrou no registro os indícios necessários para que ele e Francis Crick construíssem, em 1953, o modelo tridimensional que lhes garantiu o prêmio Nobel de 1962, dividido com Maurice Wilkins, que era desafeto de Franklin.
James Watson menosprezou a cientista na obra “A Dupla Hélice”, lançada em 1968, ao alegar que ela teria sido incapaz de perceber que a imagem revelava a forma helicoidal da molécula. Contudo, o historiador Alistair Sponsel e o cristalógrafo Brian Sutton demonstraram no Journal of the History of Biology que ela tinha plena ciência do formato e capturou a foto 51 justamente para corroborar sua descoberta.
Cadernos de laboratório desmentem teses machistas
A tese do artigo para desbancar a narrativa consolidada de falha por parte de Franklin fundamenta-se em uma chapa prévia, de número 49, além de registros manuscritos em seus diários de laboratório. Como a imagem apresentava imperfeições decorrentes do movimento da amostra sob o feixe de raios X, a especialista buscava uma figura mais adequada para fins de publicação.
De acordo com Sponsel e Sutton, esse foi o verdadeiro motivo para a ausência de anotações sobre a chapa 51 nos cadernos. Longe de representar desinteresse ou falta de capacidade por parte de Franklin — conforme retratado por Watson —, o registro era redundante porque as anotações referentes à chapa 49 já continham a hipótese helicoidal e as medições sobre a quantidade de bases (as “letras” A, T, G e C do DNA) que caberiam “em cada volta da hélice (se houver uma hélice)”.
O lampejo de Watson e o legado da pesquisadora
A citação entre aspas pertence a Franklin, embora Sponsel e Sutton não enfatizem o uso do termo “se” entre parênteses. O detalhe sugere que ela mantinha uma postura de saudável ceticismo em relação ao formato proposto, exigindo mais imagens e cálculos para comprovar tal dedução.
Nesse cenário entram Watson e Crick, especuladores audaciosos que haviam sido impedidos de estudar o DNA pelo supervisor no laboratório Cavendish. Munidos dos dados de Franklin, eles investiram dias na tentativa de solucionar o quebra-cabeça molecular por meio da manipulação de formas químicas e varetas de ligação.
Coube a Watson a intuição decisiva para consolidar a estrutura ao perceber que os pares A-T e C-G geravam geometrias idênticas. Esse reconhecimento é legítimo, independentemente de sua narrativa misógina sobre a participação de Franklin, infelizmente aceita por muitos biólogos e historiadores.
Ainda assim, elevar Franklin à condição de mártir de uma ciência machista e injustiçada pela comissão do Nobel exige cautela, visto que ela faleceu em 1958 e não poderia ser contemplada com a láurea em 1962. Reduzi-la unicamente ao papel de vítima desmerece a genialidade e a real dimensão de seu trabalho.