Prestes a completar 90 anos neste domingo, o músico Tom Zé afirma estar de boca aberta com o cenário político atual. Em sua residência no bairro de Perdizes, na zona oeste de São Paulo, onde vive há mais de cinco décadas, o artista baiano recebeu a reportagem cercado por papéis que evidenciam as celebrações de seu aniversário, incluindo uma exposição na Caixa Cultural São Paulo, uma nova biografia, além de apresentações no Rio de Janeiro, na capital paulista e em Florianópolis.
Compromissos e a política atual
Entre os projetos programados estão um disco da série Relicário, do Sesc, que resgata a gravação de uma apresentação realizada há 30 anos, e um álbum de inéditas puxado pela faixa “Futuro Fruto”. Questionado sobre o panorama eleitoral recente, o cantor prefere manter cautela. “Nem quero comentar, estou esperando o que vai acontecer”, diz. “Eles estão próximos de tomar o poder novamente. E a gente fica de boca aberta, sem saber que país é esse que está votando na ditadura.” A menção faz referência à família Bolsonaro e à apologia ao regime militar, tema que levou sua esposa, Neusa Martins, com quem é casado desde 1970, a pedir cautela na conversa por conta da prisão do artista no período.
Perseguição durante a ditadura militar
Tom Zé foi detido duas vezes pelos órgãos de repressão, sendo uma delas pelo Departamento de Ordem Política e Social (Dops) e outra pela polícia comum, quando passou dias sem que sua esposa soubesse seu paradeiro após uma revista em seu apartamento encontrar uma ponta de cigarro de maconha. Nos anos 1960, ele atuou como diretor de música do Centro Popular de Cultura (CPC) em Salvador, financiado pelo Partido Comunista, embora ressalte que sua atuação era autônoma. “Eu escrevia sobre o que queria, mas comunista eu não era. Você vai deixar de ser escravo dos Estados Unidos para ser escravo da Rússia? Qualquer pessoa que se desse um pouco de liberdade era chamada de esquerda.”
Crítica social e antropomorfismo urbano
A política em sua discografia sempre funcionou como leitura da sociedade, a começar pelo álbum de estreia, “Grande Liquidação”, de 1968, que retratava São Paulo sob a ótica de um nordestino diante da industrialização. O lirismo urbano de Tom Zé emprestava características humanas a edifícios e ruas, inspirado por Adoniran Barbosa. O moralismo e a censura também marcaram sua obra, gerando conflitos com os censores e longas horas de negociação para a liberação de faixas como “Menina Amanhã de Manhã”.
Reconhecido por sua inventividade sonora que transformou objetos cotidianos e defeituosos — como uma enceradeira quebrada — em instrumentos musicais, o artista consolidou uma carreira única. Misturando as raízes do sertão baiano aos conceitos vanguardistas do dodecafonismo aprendidos com Hans-Joachim Koellreutter na Universidade Federal da Bahia, Tom Zé resume sua essência artística de forma direta: “Sou essa miscigenação. Esse nordestino da roça que aprendeu dodecafonismo. Um dodecafonista sertanejo.”