O combate à resistência e à hesitação em relação aos imunizantes exige a adoção conjunta de cinco frentes principais: personalização da comunicação, enfrentamento ativo de notícias falsas, preparo constante dos trabalhadores da área médica, facilitação logística e iniciativas direcionadas para grávidas e puérperas.
O papel da comunicação e o combate às fake news
A primeira diretriz consiste em ajustar as campanhas aos contextos socioculturais de cada parcela da população, evidenciando tanto os ganhos individuais quanto a proteção coletiva. Isso envolve traduzir materiais para outras comunidades, simplificar termos técnicos e contar com o apoio de líderes religiosos, comunitários e figuras de influência digital. “Cada população, cada comunidade, vai sofrer barreiras diferentes para se vacinar”, afirma Ana Paula da Costa Marques, professora de microbiologia do Instituto de Biociências da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul) e uma das autoras do estudo.
No que diz respeito à segunda frente, a meta é neutralizar a desinformação por meio de respostas científicas rápidas nas redes sociais e de ações preventivas de monitoramento. “É muito melhor prevenir a desinformação do que trabalhar nela depois que ela já foi disseminada”, afirma Marques. Conforme pontua o pediatra Juarez Cunha, diretor da SBIm (Sociedade Brasileira de Imunizações), a desconfiança generalizada nas instituições afasta os cidadãos, tornando fundamental mapear os entraves locais.
Capacitação, acesso e foco em gestantes
A terceira estratégia demanda treinamentos contínuos para que os funcionários da saúde tirem dúvidas com clareza e acolhimento, fortalecendo o vínculo com os pacientes. Essa recomendação ativa também é defendida por Rosane Orth Argenta, gestora de saúde e CEO da Saúde Livre Vacinas, que reforça a necessidade de proatividade: “O profissional não deve apenas esperar que o paciente pergunte sobre a vacinação. Ele precisa avaliar o calendário vacinal e recomendar as vacinas indicadas”, afirma.
Superar barreiras geográficas e de tempo compõe a quarta frente, que sugere horários flexíveis, postos itinerantes e aplicação em locais de grande circulação como escolas e empresas. Já a quinta estratégia foca no público gestante, integrando orientações diretamente ao pré-natal e às maternidades. “Quanto mais tiver essa relação do profissional de saúde com a gestante, indicando, recomendando a vacinação, melhor”, afirma Marques.
Essas diretrizes vêm a público em um cenário de retomada nos índices de vacinação infantil no território nacional, período em que o país saiu do grupo com mais crianças sem nenhuma dose protetiva. Contudo, autoridades reforçam o alerta diante do avanço global de doenças como o sarampo e da necessidade de manter a vigilância ativa para preservar as metas de cobertura da população.