O avanço consistente de lideranças conservadoras e de extrema direita no cenário político brasileiro encontra no discurso punitivista o seu principal motor de crescimento. Mais do que uma discussão técnica sobre políticas públicas, a chamada “guerra contra o crime” tornou-se a bandeira central que impulsiona figuras públicas ligadas às forças policiais e à pauta armamentista para cargos estratégicos nos poderes Executivo e Legislativo.
A evolução eleitoral do bloco conservador desde 2014
A trajetória de expansão dos partidos associados a essa corrente política revela uma escalada estruturada na última década. Em 2014, legendas que hoje formam o núcleo desse campo (como PL, União Brasil, PP e Republicanos) governavam apenas uma unidade federativa, equivalente a 0,2% da população do país, além de representarem 23% da Câmara dos Deputados e 19% do Senado Federal.
Quatro anos depois, em 2018, o movimento alcançou a Presidência da República com Jair Bolsonaro. Naquele pleito, o bloco conquistou seis governos estaduais (alcançando 10% dos brasileiros), ampliou sua fatia na Câmara para 36% e chegou a 24% dos senadores. Já em 2022, mesmo sem reeleger o presidente, o grupo avançou de forma expressiva nos estados: garantiu 10 governadores, administrando 43% da população, e obteve 48% da Câmara e 38% das cadeiras do Senado.
Segurança pública como instrumento de disputa ideológica
A consolidação desse grupo político transformou o debate de segurança em um enfrentamento moral. Em vez de focar prioritariamente na gestão técnica das polícias, o setor aposta na legitimação de ações de força e na criminalização generalizada de opositores, alterando a percepção social sobre legalidade e garantias constitucionais.
Operações de alta letalidade, inclusive aquelas executadas sem registros em câmeras corporais, passaram a ser comemoradas por apoiadores e defendidas abertamente por figuras públicas. Paralelamente, operadores do direito que sustentam posições garantistas passam a ser estigmatizados como figuras que “defendem bandido”.
Ocupação institucional e controle de narrativas
Com projeções que apontam para o comando de 12 estados e a gestão direta de 61% da população, além de maioria absoluta no Senado (56%) e presença massiva na Câmara (46%), o movimento amplia sua capacidade de influenciar decisões de Estado. A vitória em âmbito federal abriria caminho inclusive para indicar novas vagas ao Supremo Tribunal Federal, diminuindo os contrapesos institucionais.
A articulação também se espalha capilarmente pela sociedade civil, mobilizando desde conselhos tutelares até igrejas, setores do agronegócio e a base armada, consolidando um projeto de poder que transcende os limites tradicionais das eleições brasileiras.