Nova espécie de peixe-nuvem é descoberta na Amazônia e já corre risco de extinção

Uma nova espécie de peixe foi descoberta por pesquisadores no sul do Amapá. O animal, que recebeu o nome de Laimosemion laranja por causa de sua coloração chamativa e do município de Laranjal do Jari, mede no máximo 2,7 centímetros e habita poças d’água e igarapés rasos e temporários que costumam desaparecer durante o período de estiagem na floresta.

Ameaças ao habitat e risco de extinção

O achado foi formalmente apresentado em um artigo publicado na revista especializada Zoosystematics and Evolution. A área onde o espécime foi encontrado sofre com forte degradação ambiental e avanço da atividade garimpeira, especialmente nas redondezas da Reserva Extrativista do rio Cajari. Em um dos pontos de coleta, os animais estavam em poças formadas por antigos garimpos, caracterizadas por água avermelhada e grande quantidade de sedimentos.

“Tive algumas conversas com agentes fiscais do Ibama que contaram que em Laranjal do Jari a situação é bem complicada porque é muito intensa a atividade garimpeira. Nós só percebemos isso durante a escrita do artigo ao olhar as imagens de satélite”, diz Yuri Abrantes, doutorando da UFRN e primeiro autor da pesquisa.

Além disso, a expansão urbana e o acúmulo de resíduos plásticos em outras duas localidades monitoradas colocam a sobrevivência desses animais em risco. “São sinais de que a expansão urbana e o garimpo estão comprometendo a qualidade do habitat e futuramente pode fragmentar a população, que já é reduzida”, afirma Abrantes.

Análise genética e características anatômicas

A investigação científica contou com a participação de especialistas da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Universidade Federal do Pará, Instituto Peixe das Nuvens e Universidade do Oeste da Flórida. Para mapear o parentesco da nova espécie com outros representantes do gênero na bacia Amazônica, a equipe uniu dados de anatomia interna, morfologia e genética de exemplares coletados em expedições realizadas em 2024.

“A gente bateu o olho assim, a gente olhou para aquele padrão de colorido e pensou: ‘Caramba, isso aqui é muito diferente de qualquer coisa que a gente já viu nesse grupo de peixes’”, diz Abrantes. Os exames demonstraram uma distância genética de 5,3% em relação a populações de outras regiões e de 9,2% na comparação com o L. dibaphus.

Do ponto de vista físico, o animal se diferencia de seus parentes mais próximos por possuir oito fileiras transversais de escamas e 28 vértebras, além de particularidades na estrutura óssea da cauda e na disposição das nadadeiras.

O ecossistema dos peixes-nuvem

Integrantes da família Rivulidae, amplamente conhecidos como “peixes-nuvem” ou “killifish”, representam o grupo mais numeroso de peixes de água doce em todo o planeta. O gênero Laimosemion abriga 35 espécies endêmicas concentradas na região do Escudo das Guianas, cujos ciclos de vida variam entre formas anuais e não anuais.

Os cientistas agora buscam aprofundar os estudos sobre a biologia do L. laranja para confirmar seu comportamento reprodutivo exato, embora parentes próximos apresentem estratégias anuais de sobrevivência, onde os ovos resistem enterrados na lama durante a seca. “Mas, como é um gênero que tem essa facilidade entre caminhar esses dois ciclos de vida, tudo indica que sim”, afirma o pesquisador.

O grupo responsável pela descoberta coordena uma iniciativa maior para o sequenciamento genômico de rivulídeos em diferentes biomas brasileiros. “Esse projeto reunirá o maior conjunto de dados possível de Rivulidae, com a investigação deste ciclo de vida em diferentes biomas. O que se espera é que os resultados possam contribuir com os próximos ciclos avaliativos da espécie e contribuir para a mensagem de risco de extinção dos rivulídeos”, conclui Abrantes.

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