Estudo da UFG aponta como mudanças no Mutirama afastaram crianças de baixa renda

Inaugurado em 1969 com o objetivo de unir diferentes classes sociais em um único ambiente recreativo, o tradicional Parque Mutirama, localizado em Goiânia, sofreu modificações administrativas e estruturais ao longo dos anos que acabaram dificultando a frequência de famílias de baixa renda. A constatação é o foco principal de uma dissertação de mestrado desenvolvida na Universidade Federal de Goiás (UFG), que investigou a trajetória histórica e as condições operacionais do complexo de lazer.

Origem voltada para a integração social

O estudo acadêmico foi conduzido por Lilliane Braga Arruda sob a supervisão da professora Ivone Garcia Barbosa, vinculadas ao Programa de Pós-Graduação em Educação da UFG. Defendida em julho de 2018, a pesquisa intitulada “O Parque Mutirama em Goiânia – Goiás: história e constituição de um contexto socioeducativo para crianças” baseou-ase na análise de legislações, documentos de época, registros fotográficos e depoimentos de profissionais. Entre os materiais recuperados, destaca-se uma entrevista realizada em 2017 com o ex-prefeito Iris Rezende, que detalhou a motivação por trás da criação do espaço recreativo durante a expansão urbana da capital.

“O Mutirama não foi construído para ser fonte de renda de administração principal, foi construído para atender a criança pobre”, afirmou Iris Rezende, em depoimento registrado na dissertação.

A proposta inicial buscava aproximar filhos de operários e patrões para atenuar as barreiras econômicas desde a infância, seguindo modelos de parques públicos voltados ao atendimento de comunidades trabalhadoras. No entanto, o levantamento acadêmico demonstrou que essa função social perdeu força com o passar do tempo.

Reformas e barreiras financeiras

Conforme o levantamento da UFG, o período entre 2012 e 2017 foi marcado por reformas e novas diretrizes administrativas que prejudicaram o público de baixa renda. A introdução de mais brinquedos eletrônicos, a extinção de espaços voltados a brincadeiras gratuitas, os longos períodos de interdição e a instituição de taxas de entrada criaram obstáculos operacionais. A pesquisadora apontou que a gratuidade passou a ficar restrita a visitas agendadas por escolas e instituições de ensino, fazendo com que menores de idade pudessem acessar o local acompanhados de colegas, mas tivessem restrições para retornar nos momentos de folga com os familiares devido aos custos.

Além das barreiras de acesso, a investigação esbarrou na escassez de acervos consolidados sobre a história do parque, dificultando a preservação documental de sua trajetória. Anos mais tarde, em novembro de 2024, o complexo recebeu o título de patrimônio cultural material de Goiânia por meio da Lei Municipal nº 11.268, projeto apresentado pela vereadora Aava Santiago e sancionado após aprovação na Câmara Municipal.

Reabertura e novos debates sobre bilheteria

Após permanecer fechado durante 18 meses para reformas estruturais, o parque retomou as atividades com 22 atrações recuperadas, incluindo roda-gigante, carrossel e minimontanha-russa, registrando 5.567 visitantes logo no primeiro dia de funcionamento em regime especial gratuito para o Dia das Crianças.

Apesar da recente reabertura sem custos, a Prefeitura de Goiânia avalia a cobrança de ingressos para o público geral nos finais de semana a partir de fevereiro de 2027. O projeto em estudo prevê a manutenção da gratuidade durante a semana para estudantes das redes pública estadual e municipal, além de famílias cadastradas no Cadastro Único, reacendendo a discussão levantada pela pesquisa da UFG acerca do direito universal ao lazer.

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