Aline Bei adianta detalhes de novo livro e aponta nova fase na carreira

Um dos principais nomes da literatura contemporânea brasileira, a escritora paulistana Aline Bei participou do projeto Literatura no Centro – Diálogos Acadêmicos na sede da Academia Goiana de Letras (AGL), em Goiânia. Antes de sua palestra, a autora concedeu uma entrevista exclusiva na qual revelou que já deu início à escrita de seu próximo romance.

Transição criativa e o início de uma nova fase

O novo projeto surge após o encerramento do que a romancista classifica como uma trilogia involuntária, composta pelas obras O peso do pássaro morto, Pequena coreografia do adeus e Uma delicada coleção de ausências. Com o fim desse ciclo, que ela enxerga como uma infância artística, a criadora assume novos rumos. “Agora eu estou adentrando uma adolescência como artista”, afirma. Embora prefira manter sigilo sobre o desenvolvimento da narrativa por acreditar que ele “precisa ser sigiloso, para que possa crescer, se modificar”, ela adianta que essa nova fase tem guiado o livro.

Com formação em Letras e experiência prévia no teatro, Aline construiu uma linguagem própria na ficção ao unir prosa, poesia, frases curtas e espaços em branco. Sobre a criação de suas histórias, a autora explica que inicia os trabalhos conhecendo poucos detalhes do enredo final. “Eu, como uma primeira leitora, mas também uma espécie de pessoa que descobre o livro, que desenterra o livro de um lugar, porque eu também tenho a impressão que esse livro já existe em algum espaço, e o que eu faço é dar passagem, descobrir de que matéria é feita esse mistério”, revela.

Construção de personagens e influências teatrais

A escritora relata que os enredos costumam persegui-la por meio dos personagens, dispensando mapas emocionais rígidos. Em Pequena coreografia do adeus, por exemplo, o ponto de partida para a protagonista Júlia Terra foi o uso de botas dentro de casa, detalhe que incitou reflexões sobre proteção e vulnerabilidade. “Uma pessoa que fica com botas pesadas em casa é porque, provavelmente, vive num ambiente onde ela precisa se armar, onde ela precisa se proteger e, inclusive, está calçada para fugir”, interpreta.

A raiz teatral também permanece presente em seus métodos de trabalho por meio do conceito de laboratório. “A gente tem que fazer uma pesquisa de campo para descobrir o repertório cultural, emocional desse personagem”, diz. Para ela, o tom da narrativa sobressai em importância diante do enredo. “Eu acho que a literatura se ocupa muito do como”, pontua.

Reflexão sobre silêncio e violência

Ao abordar O peso do pássaro morto, romance que retrata uma mulher dos 8 aos 52 anos diante de perdas e silenciamentos, a autora destaca a influência da leitura de Aos 7 e aos 40, de João Carrascoza, obra na qual a linguagem atua “como uma pele que envelhece”. A escolha de manter a protagonista sem nome reforçou o anonimato como ferramenta política. “Eu entendi que ela não ter nome era parte da identidade dela, que dialoga com esse anonimato de uma maneira muito radical, porque tudo que acontece com ela poderia até acontecer com qualquer uma de nós”, reflete.

A escritora também contesta a exigência social para que mulheres vítimas de violência relatem seus traumas imediatamente e destaca o papel da escuta literária. Segundo ela, “não é fácil dizer, porque muitas vezes o coletivo é inóspito”. Na visão da autora, a mudez presente na obra não representa omissão, mas sim uma experiência compartilhada. “O pássaro propõe esse silêncio como uma experiência coletiva”, afirma Aline, ao defender que o público possa “exercitar com mais empatia e alteridade a intelectualidade”.

Coletividade literária e encerramento de obras

Diante do cenário social e político atual, no qual as vivências femininas sofrem questionamentos constantes, Aline ressalta a relevância da união entre escritoras. “Eu me sinto inserida nesse coletivo e me sinto mais fortalecida, inclusive, porque somos muitas e cada vez mais”, declara, apontando que a leitura de diversas contemporâneas ajuda a formar um mosaico do feminino.

Quanto ao momento de finalizar um livro, a autora aponta que a decisão surge por meio da escuta atenta. “Um livro vai avisando quando ele está no momento ideal para ser publicado, isso não quer dizer que ele está pronto”, pondera, acrescentando que o encerramento ocorre quando o texto se torna dono de si e as alterações perdem a utilidade. “Já não há mais nada que o seu gesto possa fazer por aquele trabalho, está na hora de encerrar”, conclui.

Tendo Clarice Lispector como principal referência literária e o desejo inicial de infância voltado para a atuação cênica, Aline descobriu a escrita durante a graduação em Letras, após interagir com colegas que escreviam. “Isso mudou tudo, porque eu percebi que eu também poderia fazer isso. E aí comecei a fazer e nunca mais parei”, finaliza.

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