Em um cenário de liquidações de instituições financeiras e questionamentos sobre a segurança dos recursos depositados, as cooperativas de crédito contam com uma estrutura própria de supervisão e proteção. O modelo combina a atuação das centrais cooperativas, a fiscalização do Banco Central e a cobertura do Fundo Garantidor do Cooperativismo de Crédito (FGCoop), além de exigir controles internos e gestão responsável de cada instituição.
Crescimento e solidez do setor
A dimensão do setor ajuda a explicar a importância desses mecanismos. Em 2025, o Sicoob encerrou o ano com R$ 430,1 bilhões em ativos e 9,7 milhões de cooperados. O Sicredi registrou R$ 455 bilhões em ativos, enquanto a Unicred alcançou R$ 35 bilhões e o Sistema Ailos, R$ 28,6 bilhões. A Cresol, por sua vez, reúne mais de um milhão de cooperados, com atuação em diferentes segmentos econômicos, especialmente pequenos negócios e agricultura familiar.
Parte da estrutura de segurança está na organização das cooperativas em sistemas. As centrais, formadas por cooperativas de segundo grau, reúnem instituições singulares e oferecem suporte administrativo, tecnológico e operacional, além de acompanhar a gestão de riscos das filiadas.
Segundo Luís Alberto Pereira, presidente do Sistema OCB/GO, essa estrutura permite identificar dificuldades e agir preventivamente antes que os problemas comprometam a continuidade das operações.
“Uma cooperativa que está inserida num sistema robusto tem o suporte necessário em diversas áreas. A central pode ser considerada o primeiro nível de fiscalização que a cooperativa tem, atuando como uma espécie de auxiliar do Banco Central. Além disso, uma cooperativa que apresenta problemas não chega a fechar ou ser liquidada, o que seria muito ruim para os cooperados, que poderiam perder parte dos seus recursos, já que o sistema absorve suas obrigações”, afirma.
Como funciona a proteção dos recursos
A segurança financeira das cooperativas depende de mecanismos que atuam de forma complementar. As centrais acompanham suas filiadas, enquanto o Banco Central estabelece regras prudenciais, fiscaliza o cumprimento das normas e supervisiona as instituições sob sua competência.
Outra camada de proteção é o Fundo Garantidor do Cooperativismo de Crédito (FGCoop), que cobre depósitos e créditos elegíveis de até R$ 250 mil por associado, por instituição ou conglomerado, conforme as regras e os limites aplicáveis. A garantia, porém, não representa uma cobertura irrestrita de todos os recursos mantidos pelos cooperados.
Para Marcelo Baiocchi Carneiro, presidente do Conselho de Administração do Sicoob Nova Central, a proximidade entre as centrais e as cooperativas favorece o acompanhamento das operações e a adoção de medidas preventivas.
A estrutura regional também pode ser observada nos números do Sicoob Nova Central. Em 2025, a instituição encerrou o exercício com 351.291 cooperados e 31 cooperativas filiadas, distribuídas por 13 estados e 159 municípios. Os ativos somaram R$ 21 bilhões, e o patrimônio líquido chegou a R$ 775 milhões. Nos cinco anos anteriores, a central realizou três incorporações de cooperativas.
Crescimento exige governança e transparência
A organização em sistemas, no entanto, não elimina os riscos inerentes à atividade financeira. A solidez de cada cooperativa também depende da manutenção de capital adequado, liquidez, qualidade da carteira de crédito, controles internos e transparência na tomada de decisões.
O crescimento do setor aumenta a importância desses cuidados, especialmente para garantir que a expansão das operações seja acompanhada pela capacidade de administrar riscos e prestar contas aos associados.
“Um dos pontos centrais é manter padrões consistentes de governança, com clareza de papéis e responsabilidades, decisões fundamentadas em dados, prestação de contas e atuação efetiva dos órgãos de administração e fiscalização. À medida em que as instituições crescem, é essencial preservar a qualidade das decisões e a proximidade com a realidade dos cooperados”, afirma Marcelo Baiocchi.
Uma característica do cooperativismo de crédito é que os associados não são apenas clientes: eles também são donos das instituições. Por isso, a participação nas decisões e o acesso às informações sobre a gestão são elementos importantes para a confiança no modelo.
Celso Figueira, presidente da Central Sicredi Brasil Central, destaca que o relacionamento com os associados deve incluir transparência sobre o planejamento e os rumos da instituição.
“Todo o planejamento da cooperativa e do seu desenvolvimento tem que ser de conhecimento dos associados da cooperativa. Assim, nós vamos ter uma relação de confiança que vai nos permitir ser sustentáveis e continuar esse crescimento vertiginoso que as cooperativas estão tendo nos últimos anos”, afirma.
Incorporações como estratégia de fortalecimento
A união entre cooperativas é outra ferramenta utilizada pelo setor. Além de permitir a reorganização de instituições que enfrentam dificuldades, as incorporações podem ampliar a capacidade operacional, reunir patrimônios e abrir espaço para a atuação em novos mercados.
Segundo Celso Figueira, essas operações também podem fazer parte de estratégias de expansão.
“Em muitas oportunidades, as cooperativas se unem estrategicamente para alcançar mercado, para aumentar seus limites operacionais e juntar patrimônios. A partir daí, as cooperativas podem ampliar o seu espectro de negócios, atingir um outro nicho de mercado e continuar em crescimento”, explica.
A expansão, contudo, não substitui a necessidade de fiscalização e gestão prudente. A capacidade de prevenir problemas, proteger os recursos dos associados e manter a confiança no sistema depende da combinação entre supervisão, mecanismos de garantia, governança e participação dos cooperados.