Fim da escala 6×1 vai reduzir gorjetas de garçons, alerta Abrasel

A transição do modelo de trabalho atual para o regime de dois dias de descanso trará impactos financeiros severos para o setor de alimentação fora do lar. De acordo com Paulo Solmucci, presidente-executivo da Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes), a mudança diminuirá o repasse de taxas de serviço aos profissionais e elevará as despesas operacionais, afetando principalmente estabelecimentos localizados em áreas de menor poder aquisitivo.

Impacto financeiro e a queda nas gorjetas

O Senado vota nesta quarta-feira (14) a PEC 221, proposta que encerra o modelo de seis dias de trabalho para um de folga e estabelece a jornada 5×2, sem redução nos vencimentos. Para a entidade setorial, a medida exigirá o pagamento de dois descansos semanais remunerados, gerando uma elevação de 9,1% na folha de pagamento das empresas. Além do encarecimento operacional, a mudança no tempo de atendimento aos clientes resultará em prejuízos diretos aos funcionários.

“Vamos ter problemas com a oferta de serviço. Restaurantes ricos vão tomar a cozinheira dos restaurantes menos favorecidos. Conversei com um garçom e ele disse que era bom as pessoas ficarem mais em casa. Agora, já pensou que vai ter 52 dias de gorjeta a menos no ano, e isso equivale a dois meses? O garçom não sabia disso”, diz Solmucci.

Críticas à condução política e articulações no Senado

A condução da votação pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), foi recebida com frustração pela associação. Segundo o dirigente, havia um compromisso prévio de não pautar a matéria neste momento político. A entidade também avaliou a mudança de posicionamento do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que passou a apoiar a PEC, atribuindo a decisão à pressão exercida pelas redes sociais e pelo governo federal.

“Achei que no Senado a gente não fosse enfrentar isso. Infelizmente os resultados da eleição no Amapá reduziram a expectativa dele [Alcolumbre] de alguma coisa”, afirma o presidente da Abrasel sobre Alcolumbre, complementando sobre Flávio Bolsonaro: “Não gosto da mudança, mas compreendo, porque tem uma eleição.”

Dificuldades de contratação e defesa do trabalho por hora

A projeção da entidade aponta para uma escassez de mão de obra no mercado caso a nova jornada seja implementada. Com cerca de 15 milhões de trabalhadores hoje na faixa de 44 horas semanais, a adequação exigiria a contratação de 3 milhões de novos profissionais, volume considerado inexistente no cenário atual.

Como alternativa para flexibilizar as relações trabalhistas e garantir a competitividade, a associação defende a aprovação simultânea da PEC das horas trabalhadas, modelo adotado em nações norte-americanas e europeias. Para Solmucci, o argumento de que a escala de dois dias de folga facilita contratações em massa é inverídico.

“Quando fala que uma determinada empresa conseguiu sucesso e generaliza isso como uma possibilidade para toda a economia é de desonestidade intelectual. A mão de obra que permitiu ajuste para uma pode não ser replicada para outra”, conclui.

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