Neste 15 de outubro, data em que se celebra o Dia do Professor, a profissão que já esteve entre as mais valorizadas do país enfrenta um preocupante apagão de docentes das novas gerações. Dados do movimento Todos Pela Educação, fundamentados em informações do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), indicam que de cada 100 jovens matriculados em cursos de pedagogia e licenciatura, somente 51 chegam ao fim da graduação, enquanto apenas 27 demonstram interesse em exercer o magistério.
Desafios cotidianos na rede pública
Professores da educação básica, docentes do ensino superior, uma coordenadora pedagógica e uma estudante de licenciatura ouvidos recentemente descrevem uma rotina marcada por exaustão, adoecimento e desestímulo. Professora da rede estadual em Aparecida de Goiânia, Fernanda S. de Jesus, de 28 anos, aponta que a desvalorização envolve múltiplos fatores. “Muito se fala sobre a questão salarial, e eu concordo, porque fora do serviço público, quem trabalha no serviço privado, a hora-aula é muito baixa”, afirma.
A necessidade de complementar a jornada em diferentes instituições gera desgaste físico e mental devido aos deslocamentos. Fernanda relata que as turmas são numerosas e carecem de suporte. “A sala de aula tem uma média de 40 alunos por turma, é muita gente. Não tem profissionais de apoio”, relata, acrescentando que as escolas absorvem demandas que deveriam ser competência de órgãos como conselhos tutelares e centros de atendimento psicológico. “A gente fica fazendo encaminhamentos fantasmas, que não têm devolutiva”, diz.
Problemas estruturais e perdas salariais
Outro entrave apontado pela docente reside no plano de carreira estadual, uma vez que cerca de 30% da remuneração é composta por gratificações que não se incorporam ao vencimento básico. “Quase 30% do nosso salário é gratificação. Então, isso não incorpora no vencimento”, explica. Como consequência, profissionais evitam o afastamento por doença para não sofrer reduções drásticas na renda ou adiam a aposentadoria. “Não é uma coisa que eu deva aturar só porque eu sou professora”, desabafa.
Para o professor titular de Geografia da Universidade Federal de Goiás (UFG), Tadeu Alencar Arrais, a superação do problema exige abandonar a idealização da figura docente. “O professor, antes de qualquer coisa, deveria ser compreendido com um profissional com determinadas habilidades e responsabilidades”, argumenta. Ele destaca o volume de trabalho na rotina escolar. “O professor é o único profissional que diariamente lida, ao mesmo tempo, em uma sala de aula com 30, 35, 40 alunos. Ninguém faz isso”, compara.
Violência e evasão nas licenciaturas
O pesquisador menciona estudos sobre a violência contra docentes e critica o modelo de remuneração em Goiás. “No caso específico de Goiás, o professor está impedido de adoecer”, critica, ao lembrar que o plano de cargos retira a gratificação de regência de quem apresenta atestado médico. O Estado registra centenas de aposentadorias por invalidez anualmente, compondo um dos quadros de docentes mais velhos do país.
Isadora de Melo e Silva Bastos, graduanda em Letras pela PUC Goiás e licenciada em História pela UFG, avalia que o desinteresse juvenil reflete esse cenário adverso. “Eu vejo que tem um desinteresse dos mais jovens, dessa nova geração pela profissão docente porque existe uma desvalorização crescente na nossa sociedade”, observa. Ela rebate declarações de autoridades sobre o tema. “Eu discordo completamente da secretária porque não é falta de vocação, não é falta de querer trabalhar, mas sim falta de condição de saúde física e mental”, argumenta.
Visão do ensino superior e da gestão pedagógica
O professor Rogério Pereira Bastos, da UFG, nota que as turmas de licenciatura atraem estudantes, mas a inserção efetiva na carreira não se concretiza. “Você tiene jovens que procuram fazer o curso de graduação, mas depois que eles se formam, a minha percepção é que eles não estão indo mesmo atuar na docência”, aponta, citando baixos salários, precariedade estrutural e restrições temáticas em sala. Ele também relata perdas financeiras em afastamentos para qualificação. “Teve um professor que me disse que perdeu cerca de R$ 4, R$ 5 mil, que é quase 50% do salário dele”, conta.
Na perspectiva da coordenadora pedagógica Maria Cristina Pires da Silva, de 58 anos, o ingresso em concursos muitas vezes busca apenas a estabilidade financeira. “Muitos passam no concurso para ter uma estabilidade financeira, mas assumir a sala de aula, eles não querem”, avalia. Com décadas de experiência, ela reconhece o descontentamento generalizado, mas reforça a paixão pelo ofício. “Estou para aposentar. Se fosse para dizer assim para mim: ‘Cristina, você quer fazer de novo pedagogia e ir para a sala de aula de novo?’, eu gostaria de ir, porque é um trabalho que eu gosto”, confessa.
A situação reflete um panorama nacional e internacional desfavorável. Dados do Instituto Semesp indicam que a carreira perde atratividade em todo o Brasil, com remunerações abaixo da média da OCDE e inferiores aos ganhos de outros profissionais com ensino superior, contrastando com países onde a docência figura entre as profissões mais desejadas.