O medo e o tabu ainda fazem com que muitas mulheres evitem conhecer o próprio corpo, dificultando a detecção precoce de doenças como o câncer de mama. No consultório, a mastologista e ginecologista Mariana Lobo, do Hospital Mater Dei Goiânia, relata que ouve frequentemente pacientes que preferem não realizar o autoexame por receio do que podem encontrar. Para a médica, a palpação é fundamental para perceber mudanças e buscar auxílio médico.
“Infelizmente, a gente pega no consultório, ou mesmo conhecidos que falam: ‘Nossa, Deus me livre de colocar a mão no meu peito e achar alguma coisa’. Mas a palpação do autoexame é uma forma da paciente conhecer o próprio corpo”, afirma ao Jornal Opção.
A experiência de Aparecida Francisca da Silva Espírito Santo
Moradora da Cidade de Goiás, Aparecida Francisca da Silva Espírito Santo, de 44 anos, sempre manteve o hábito de realizar exames regularmente. No entanto, após um resultado inicial de lesão benigna, uma nova biópsia realizada meses depois no Hospital das Clínicas, em Goiânia, revelou um tumor maligno que cresceu rapidamente, passando do tamanho de uma azeitona para algo maior que um limão.
O diagnóstico exigiu uma mudança radical em sua rotina, incluindo uma mastectomia e 15 sessões de radioterapia. Cida, que atualmente aguarda o procedimento de reconstrução mamária, recorda o impacto inicial da notícia.
“Quando eu vi que era maligno, passou pela minha cabeça: vou morrer. É uma sentença”, lembra.
Estatísticas e o cenário do câncer de mama em Goiás
De acordo com estimativas da Secretaria de Estado da Saúde de Goiás (SES-GO), o estado deve registrar 1.890 novos casos da doença em 2026. Em âmbito nacional, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) aponta mais de 70 mil novos diagnósticos anuais, enquanto os dados globais da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam cerca de 2,3 milhões de mulheres diagnosticadas em 2022.
Para ampliar o acesso aos exames, dados da SES-GO mostram que o Sistema Único de Saúde (SUS) registrou 376.575 mamografias em Goiás entre 2022 e 2025, além de 46.361 exames contabilizados na base parcial de 2026. Goiânia lidera o ranking de procedimentos no período, seguida por Aparecida de Goiânia, Anápolis, Rio Verde e Senador Canedo.
Sintomas, exames e importância do diagnóstico precoce
O mastologista Rubens José Pereira, do Hospital Araújo Jorge, ressalta que o nódulo não é o único sinal de alerta. Retrações na pele, alterações na textura da mama, secreções pelo mamilo, vermelhidão e inchaços nas axilas também exigem investigação imediata.
“Qualquer alteração desta, é importante procurar um profissional capacitado para poder tentar fazer o diagnóstico. E quanto mais cedo fizer o diagnóstico, maiores são as chances de cura”, afirma ao Jornal Opção.
O especialista também destaca que a mamografia antecipa a detecção em até dois anos. “A mamografia, por exemplo, ela antecipa o diagnóstico de 1 a 2 anos. Então, quanto mais cedo se fizer o diagnóstico, maiores serão as chances de cura, menores serão a toxicidade do tratamento, o sofrimento é bem menor, e inclusive os gastos públicos também serão menores”, afirma.
Acompanhamento personalizado e o impacto emocional
Mariana Lobo reforça que os tratamentos variam conforme as características de cada paciente, desmistificando a ideia de que todas passam pelos mesmos procedimentos.
“Não quer dizer que uma paciente que fez quimioterapia, a outra também vai fazer. Não quer dizer que uma paciente que precisou tirar completamente a mama, a outra também vai fazer”, explica.
Além dos desafios físicos, Cida enfrentou o luto e as consequências emocionais da retirada da mama, recebendo apoio psicológico e acompanhamento médico contínuo para planejar a reconstrução mamária.
“Eu achei que não ia passar por esse período. Tinha um luto, sabe? E, nesse momento, eu ainda estou vivendo esse período desse luto”, relata.
Recuperando sua rotina aos poucos e retornando à prática de exercícios físicos, Cida deixa um alerta fundamental para outras mulheres sobre a importância de priorizar a saúde e superar o medo do diagnóstico.
“Não tenha medo de ir ao médico, de se cuidar, de buscar diagnóstico precoce”, aconselha. “Perca o medo de buscar ajuda o mais cedo possível. Se não estiver satisfeita com aquela consulta, busque outra, mas priorize a prevenção.”