O setor hoteleiro em Goiás manifesta preocupação com os impactos do fim da escala 6×1, medida que teve nova etapa aprovada e promulgada recentemente pelo Senado Federal. Enquanto lideranças empresariais preveem custos operacionais mais altos e cortes de pessoal, especialistas apontam que o mercado de trabalho pode absorver a mudança sem prejuízos drásticos para o emprego.
Impacto financeiro e reestruturação na visão do setor
O presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis em Goiás (ABIH-GO), Charleston Pimentel, defende a manutenção da escala 6×1 e critica a redução da jornada de trabalho aprovada e que foi promulgada pelo Senado Federal nesta sexta-feira, 16. Segundo ele, a mudança pode elevar os custos da hotelaria e provocar demissões.
“Somos favoráveis a continuar a escala seis por um”, afirmou em entrevista ao Jornal Opção. Para Charleston, a redução da jornada exigirá mudanças na estrutura dos hotéis. Ele avalia que parte dos estabelecimentos precisará contratar funcionários para cobrir as escalas, enquanto outros poderão reduzir equipes e terceirizar serviços.
“Uns vão ter que contratar, outros vão ter que demitir. Cada hotel vai ter que ajustar a sua necessidade”, disse. Charleston citou o próprio empreendimento como exemplo dos ajustes que pretende fazer. Ele afirmou que vai terceirizar a lavanderia do hotel para reduzir despesas operacionais.
“Eu vou terceirizar minha lavanderia. Vou demitir funcionário”, declarou. Segundo o empresário, a mudança deve resultar na demissão de quatro trabalhadores. Ele também pretende reduzir gastos com energia e materiais de limpeza.
Questionamentos sobre os efeitos práticos para o trabalhador
O presidente da ABIH-GO também questiona os efeitos da mudança para os trabalhadores. Segundo ele, funcionários da hotelaria costumam trabalhar em mais de um estabelecimento e podem continuar trabalhando nos dias de folga. “Ele vai arrumar outro emprego, ele vai trabalhar. É isso que acontece na hotelaria”, afirmou.
Na avaliação de Charleston, a redução da jornada não garantirá, necessariamente, mais descanso aos trabalhadores. Ele também prevê redução na oferta de empregos e critica a condução da proposta pelo governo federal. “Vai gerar menos empregos. Só está destruindo a economia”, declarou.
A afirmação sobre o comportamento dos trabalhadores, no entanto, representa a avaliação do dirigente e não foi acompanhada de dados sobre a quantidade de profissionais da hotelaria que mantêm mais de um emprego. Questionado sobre o impacto financeiro da redução da jornada em Goiânia, Charleston afirmou que não há um cálculo único para todo o setor.
Segundo ele, os efeitos dependerão da estrutura de cada empreendimento, dos departamentos mantidos e das decisões tomadas pelos empresários. “Vai depender de cada hotel. Cada hotel vai ter o seu levantamento”, disse.
Pesquisas e experiências históricas contestam previsões de desemprego
As previsões de aumento do desemprego com o fim da escala 6×1 não são consenso entre economistas. Estudos sobre mudanças anteriores na jornada de trabalho no Brasil e em países europeus apontam que a redução das horas trabalhadas não provocou, necessariamente, perdas significativas de postos de trabalho.
Uma pesquisa sobre a mudança promovida pela Constituição de 1988, quando a jornada semanal máxima caiu de 48 para 44 horas, não identificou aumento significativo do desemprego entre os trabalhadores atingidos pela medida. O estudo foi realizado pelo economista Naercio Menezes Filho, professor do Insper e da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP), em parceria com outros pesquisadores.
Os resultados indicaram aumento da remuneração por hora trabalhada e redução de aproximadamente 2% no salário mensal, segundo reportagem da Folha de S.Paulo. Naercio avalia que os resultados da experiência brasileira não sustentam as previsões mais pessimistas sobre a redução da jornada.
Contexto internacional e o impacto na economia
Um estudo publicado em 2022 na revista World of Labour, ligada ao Instituto de Economia do Trabalho (IZA), analisou reformas implementadas em Portugal, Itália, França, Bélgica e Eslovênia. Os pesquisadores Cyprien Batut, Andrea Garnero e Alessandro Tondini identificaram crescimento econômico relativamente robusto nesses países entre 1995 e 2007, sem efeitos significantes sobre o nível de emprego associados às reduções de jornada analisadas.
As mudanças ocorreram em contextos distintos. Em Portugal, por exemplo, a jornada semanal padrão caiu de 44 para 40 horas em 1996, sem redução dos salários mensais. Na França, a jornada padrão passou de 39 para 35 horas em 1998, também sem redução dos salários mensais líquidos.
Dados do Ministério do Trabalho indicam que 14,8 milhões de brasileiros trabalhavam na escala 6×1, pouco mais de um terço da mão de obra formal. A socióloga Adriana Marcolino, diretora técnica do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), afirma à BBC que esse contingente representa menos de 15% das 103 milhões de pessoas ocupadas no país.
Na avaliação da pesquisadora, a mudança pode ser absorvida pelas empresas, com reorganização do trabalho e ampliação do período de descanso dos funcionários. Adriana também argumenta que a redução da jornada pode estimular contratações e elevar a massa salarial, com reflexos positivos sobre o consumo.