O lançamento da segunda edição da obra coletiva de narrativas de magistrados goianos marca um momento de celebração literária no tribunal. Intitulado “Não Consta dos Autos”, o livro reúne crônicas de livre temaria escritas por juízes e desembargadores que buscam revelar a humanidade por trás da toga.
A leveza da crônica e a aproximação com a poesia
Para o magistrado e colaborador da obra, o formato da crônica literária estabelece um vínculo sutil com quem lê, assemelhando-se à essência da poesia. Escrever crônicas permite que o operador da justiça deixe de lado a rigidez do cargo para expressar sentimentos cotidianos, medos e reflexões, funcionando como uma terapia que reduz as neuroses inerentes à profissão de julgar.
Relatos humanos e memórias do tribunal
As páginas do livro funcionam como retalhos da vida, reunindo momentos de alegria, pesar, esperança e solidão enfrentados por quem tem a responsabilidade de aplicar a lei. As narrativas expõem fraquezas e dilemas que normalmente ficam ocultos sob a autocensura, mostrando que o juiz é um ser humano vulnerável às vicissitudes da existência.
Histórias marcantes e o resgate de episódios históricos
Entre os episódios de destaque na publicação está o relato do desembargador Gilberto Marques Filho sobre a histórica rebelião no Cepaigo em 1996, quando autoridades ficaram reféns por sete dias. O magistrado relembrou momentos de extrema tensão durante o cativeiro, incluindo episódios de negociação direta com detentos.
Sobre a rebelião, o desembargador relatou um episódio de troca de objetos com um detento e a intervenção de uma liderança criminosa: Acabamos sendo dominados pelos presos. A rebelião, que durou sete dias [em 1996], foi comandada pelo preso Leonardo Pareja e teve repercussão internacional. Ficamos reféns dentro do presídio por uma semana, de quinta a quinta.
Em outro trecho de sua memória sobre o cativeiro, ele detalhou uma ameaça sofrida: Pois é, doutor, o senhor me condenou com muitos anos de cadeia, mas agora você está na minha mão, relembrando a fala de um homem que havia condenado no passado e que foi contido pelo líder do motim.
A publicação consolida-se como um importante documento histórico e afetivo, preservando a memória institucional do Judiciário goiano e oferecendo ao público um testemunho sensível dos dramas e triunfos vividos por seus magistrados ao longo da carreira.