Milhares de pessoas tomaram as ruas de países europeus neste fim de semana em protestos marcados por forte tensão, depredações e confrontos violentos com a polícia. As manifestações na França e na Albânia refletem a insatisfação popular com a escalada no custo de vida, a precariedade dos serviços públicos e denúncias de corrupção, enquanto mobilizações semelhantes também atingiram a Bélgica.
Crise e violência nas ruas francesas
Na França, a polícia recorreu ao uso de gás lacrimogêneo para dispersar manifestantes em diversas cidades. Apenas no período da manhã, as autoridades contabilizaram 140 atos fora de Paris, reunindo cerca de 32,8 mil pessoas. Na região metropolitana da capital, aproximadamente 100 indivíduos foram detidos sob a acusação de portar equipamentos de proteção proibidos. A onda de insatisfação começou no mês passado em colégios de periferias parisienses, impulsionada inicialmente por queixas sobre a falta de docentes e a deterioração da infraestrutura escolar, mas rapidamente evoluiu para pautas de âmbito nacional.
O Ministério do Interior francês confirmou ocorrências de vandalismo em Marselha e ataques direcionados a agentes de segurança, jornalistas e edifícios estatais. O esquema de policiamento foi reforçado nas zonas centrais de Paris, mantendo bloqueios próximos a pontos turísticos e avenidas principais. Parte dos atiradores adotou coletes de alta visibilidade, remetendo ao histórico movimento dos Coletes Amarelos. A pressão recai diretamente sobre a gestão do presidente Emmanuel Macron diante de um cenário de fragilidade econômica e custos de endividamento em patamares não vistos nas últimas duas décadas.
Em Paris, a manifestante Lola, de 19 anos, afirmou que a mobilização reúne reivindicações econômicas e educacionais. “Estamos lutando porque o custo de vida está insuportável, porque o preço do combustível está alto demais e porque estudantes do ensino médio estão sendo violentamente atacados e feridos por todo o país, apenas por tentarem protestar e exigir mais professores e condições dignas de ensino”, disse.
O rigor da atuação policial também entrou na mira de investigações após dezenas de denúncias de excessos. Entre os casos mais graves, um adolescente sofreu a amputação de uma das mãos ao segurar uma granada de efeito moral. Embora o governo tenha suspendido o artefato em atos estudantis, o ministro do Interior, Laurent Nunez, autorizou o emprego do equipamento no fim de semana. O ministro Sébastien Lecornu reportou que mais de 900 policiais sofreram ferimentos durante os tumultos.
Escalada de revolta e crise política na Albânia
A capital albanesa, Tirana, registrou o quarto dia consecutivo de intensos protestos liderados por jovens que exigem a renúncia do primeiro-ministro Edi Rama. Os atos evoluíram para confrontos abertos, com quebra de vidraças, invasão a instituições bancárias e ataques a comércios. A revolta estudantil denuncia negligência governamental, desemprego e casos de corrupção, além de rejeitar um controverso projeto de resort de luxo em zona litorânea preservada apoiado por familiares de figuras políticas internacionais.
Aos 19 anos, a estudante Enea, que não revelou o sobrenome por medo de ser presa, pediu a saída do primeiro-ministro. “Estão nos levando ao limite”, afirmou. Em seguida, dirigiu uma mensagem a Rama: “Renuncie o mais rápido possível, antes que tudo pegue fogo”.
Outra manifestante, Klea, também de 19 anos, disse que os estudantes decidiram intensificar os atos após não obterem respostas do governo. “Protestamos pacificamente por 140 dias, e ninguém nos ouviu. Esta é nossa única chance de sermos ouvidos e conquistarmos os direitos que merecemos”, disse.
Em resposta às turbulências, o premiê Edi Rama utilizou as redes sociais para assegurar que a administração pública não recuará diante da pressão física. “Não nos curvaremos à violência”, afirmou. Para o analista político Afrim Krasniqi, o descontentamento reflete a percepção de que as riquezas nacionais estão centralizadas nas mãos de poucos grupos. “Elas veem que todos os recursos do país, políticos, econômicos, tudo, estão nas mãos dos oligarcas”, afirmou à Reuters.
Protestos na Bélgica e panorama europeu
Simultaneamente, a cidade de Bruxelas, na Bélgica, presenciou protestos estudantis focados na defesa da qualidade do ensino e do futuro das novas gerações. Cartazes com críticas políticas e referências culturais marcaram o ato, que também registrou episódios de violência, incluindo o tombamento de um veículo e choques com a tropa de choque.
As manifestações simultâneas na Europa demonstram um descontentamento generalizado com a gestão pública, a desigualdade social e a falta de canais efetivos de diálogo entre os governos e a população jovem.