À medida que se aproxima de seus 100 anos, comemorados em 2033, Goiânia tem passado por profundas transformações viárias para redefinir seu modelo de mobilidade urbana. Desde 2025, a capital aplicou cerca de R$ 366 milhões em ações do setor, englobando o recapeamento de mais de 500 km de vias e a conclusão do Trecho 1 do BRT Norte-Sul. O planejamento também reserva mais R$ 317 milhões para 2027, voltados à modernização da frota de transporte coletivo com veículos equipados com a tecnologia Euro 6.
Programa Nova Mobilidade e intervenções viárias
As mudanças estruturais seguem as diretrizes do Programa Nova Mobilidade, instituído por decreto em fevereiro de 2025. Sob a coordenação da Secretaria de Engenharia de Trânsito de Goiânia (SET), o órgão mapeou 36 corredores viários prioritários que somam 300 km de extensão. Intervenções expressivas foram realizadas em cruzamentos como o das avenidas T-10 e T-55, no Setor Bueno, e na GO-070, nas proximidades do Hospital Estadual de Urgências Governador Otávio Lage de Siqueira (Hugol).
De acordo com o secretário de Engenharia de Trânsito de Goiânia, Tarcísio de Abreu, o trabalho priorizou os trechos mais críticos. “Começamos a trabalhar de acordo com a criticidade desses corredores e com o volume de obras que eram feitas”, afirmou. As mudanças já geram aumentos na fluidez que variam de 19% a 42% dependendo da via.
Modernização semafórica e conversões livres
Um diagnóstico inicial revelou que 82% dos semáforos da capital funcionavam de forma offline e sem controle central. Para reverter o quadro, a prefeitura estabeleceu a meta de implantar ondas verdes e tecnologia inteligente em 250 km de vias até o final de 2027. “Os corredores com as ondas verdes, o investimento semafórico, tudo isso o prefeito Sandro Mabel (UB) quer que seja concluído e entregue até o final do próximo ano. Esse é o nosso objetivo”, declarou Tarcísio de Abreu.
Outra iniciativa de destaque foi a adoção da conversão à direita livre em mais de 120 cruzamentos. “Acredito que a Direita Livre é uma das ações que mais deram certo na gestão do prefeito Sandro Mabel. Isso foi uma ideia dele”, pontuou o secretário. Contudo, a pasta reforça que os motoristas devem redobrar a atenção: “A direita é livre, mas a prioridade é sempre do pedestre. O motorista tem que estar atento a isso. […] Temos trabalhado junto à Secom [Secretaria Municipal de Comunicação] para fazer campanhas educativas sobre a importância de respeitar o pedestre, a velocidade da via, de não furar o semáforo e da proibição do uso do celular enquanto dirige.”
Desafios na GO-070 e avaliação popular
Entre as entregas mais recentes está a nova rotatória em frente ao Hugol, projetada para desafogar o tráfego diário de 24 mil veículos e ambulâncias. Apesar das alterações, motoristas e profissionais da saúde apontam que o fluxo ainda exige adaptações. A médica Vanessa Gemus relatou dificuldades em um de seus deslocamentos na região: “[A nova configuração] me prejudicou hoje às 7 horas. Demorei 25 minutos desde que saí do Hugol para entrar na Anhanguera. Não tem como entrar na via.”
Por outro lado, condutores como o administrador Guilherme Rezende elogiaram as mudanças na Avenida T-10, destacando a economia de tempo no horário de pico. Já a supervisora comercial Samara Dantas ponderou que, embora o acesso ao comércio local tenha melhorado, seu trajeto rotineiro para retornar ao escritório e ao shopping exigiu desvios adicionais.
Visão de futuro e alertas acadêmicos
Para o planejamento rumo ao centenário, a administração municipal estuda modelos adotados em metrópoles brasileiras como Curitiba, Belo Horizonte e Fortaleza, além de referências internacionais em Barcelona, Lisboa e Moscou. No entanto, o pesquisador de Transportes da Universidade Federal de Goiás (UFG), Ronny Alliaga, alerta que o adensamento imobiliário acelerado em bairros como Bueno e Marista pode intensificar o uso de veículos particulares. “Esses setores são ‘geradores motorizados’ de famílias que tendem a ter um ou dois carros. Então, essas residências de alto padrão direcionam o morador a utilizar o transporte individual e não utilizar o transporte coletivo”, explicou.
O especialista também chama a atenção para o risco do tráfego induzido em vias recém-reformadas. “Me preocupa porque, ao desafogar alguns pontos críticos de congestionamento, nós voltamos ao aumento de veículos. Quando melhoramos algum cruzamento, ele funciona bem por alguns dias e começa a induzir mais pessoas a utilizá-lo”, advertiu Alliaga.
Paralelamente às obras viárias, a prefeitura mantém projetos voltados a modais alternativos, como a futura implementação do sistema de bicicletas compartilhadas City Bike e a instalação de 54 botoeiras sonoras para pedestres com deficiência visual. Com investimentos integrados entre a SET, a Seinfra e a Comurg, a gestão municipal aposta na expansão dos corredores de transporte coletivo e na renovação da frota para consolidar um modelo sustentável de mobilidade.