A conquista da autonomia física nem sempre segue caminhos convencionais. Para a publicitária Letícia Silvério, atualmente com 32 anos, a verdadeira independência começou quando ela decidiu, ainda na adolescência, abrir mão de um membro que não tinha funcionalidade. Sobrevivente de um câncer infantil, a comunicadora precisou convencer os pais e a equipe médica a realizarem a cirurgia que mudaria o rumo de sua vida.
O diagnóstico precoce e a busca por qualidade de vida
A trajetória de Letícia com a medicina começou cedo, aos cinco anos de idade, quando sua mãe notou que ela mancava. Exames radiológicos apontaram uma alteração no joelho esquerdo, levando ao diagnóstico oncológico no Hospital Araújo Jorge, situado em Goiânia. Embora tenha alcançado a remissão da doença, os efeitos colaterais comprometeram severamente a estrutura de sua perna esquerda.
O membro parou de acompanhar o ritmo natural de crescimento do restante do corpo e perdeu a mobilidade. Durante anos, a jovem foi submetida a enxertos, intervenções cirúrgicas e processos de alongamento na tentativa de restaurar o movimento. Como resultado prático nulo, ela era obrigada a utilizar uma bota ortopédica com compensação de até 20 centímetros e muletas para se locomover.
Ao perceber o desgaste sem evolução clínica, Letícia tomou a iniciativa aos 12 anos e pediu a amputação. A decisão gerou receio inicial na família, mas a insistência durou dois anos, até que os especialistas confirmaram a ausência de prognóstico para a recuperação funcional. Com isso, o procedimento foi concretizado aos 14 anos.
Era nítido ver que o tratamento não estava funcionando, porque a minha perna não crescia. A minha perna não era funcional, relembra.
Liberdade com prótese e presença digital
O período pós-cirúrgico marcou o início de uma nova fase de descobertas. Sem as limitações do aparelho ortopédico, a jovem começou a praticar natação, passou a dançar, aprendeu a dirigir e ingressou no ambiente universitário. A primeira adaptação ocorreu por meio de uma prótese disponibilizada pelo Sistema Único de Saúde (SUS), utilizada por cerca de nove anos.
A amputação para mim foi uma virada de chave. Sem a minha perna eu me redescobri, foi maravilhoso, afirma.
Ao ingressar no curso de Publicidade e Propaganda na Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC Goiás), em 2012, Letícia notou a escassez de relatos informativos sobre a rotina de pessoas amputadas. Decidiu usar as redes sociais para preencher essa lacuna. O engajamento atraiu parcerias comerciais a partir de 2017, consolidando seu trabalho como influenciadora e defensora dos direitos das pessoas com deficiência (PCDs), abordando temas como isenções fiscais e acessibilidade.
Além de atuar no setor de marketing do Ipasgo e estrelar peças publicitárias, ela participou de produções audiovisuais e integrou o elenco de um reality show na plataforma Amazon Prime no ano de 2023.
Acesso a tecnologias assistivas
A comunicadora alerta que, embora a assistência pública seja fundamental, equipamentos mais avançados demandam estratégias próprias por parte dos pacientes.
Se você quer uma qualidade melhor e tudo, não desiste, faz rifa. E é um investimento que, a longo prazo, supervale pela qualidade que você tem, pelo tempo que você fica usando uma prótese, aconselha.
Maternidade e a desconstrução de rótulos
A vontade de gerar um filho acompanhou Letícia ao longo da maturidade. Buscando referências em outras mulheres com deficiência, ela engravidou aos 29 anos e manteve cuidados nutricionais rigorosos para preservar a marcha com o membro protético até o final da gestação. O parto ocorreu por cesariana e, já no segundo dia do puerpério, a publicitária voltou a caminhar.
Hoje mãe de um garoto de dois anos e meio, ela divide seu tempo entre os cuidados familiares, a carreira e treinos de alta intensidade, como musculação e CrossFit. Recusando o papel exclusivo de superação extraordinária, Letícia defende a normalização dos corpos com deficiência nos mais diversos ambientes da sociedade.
Eu tenho uma rotina de levá-lo para a escola, de trabalhar, de fazer esporte. Então, assim, vida normal. Eu nem sei se esse é o termo legal de se usar, ‘vida normal’. Eu vivo a vida, acho que é isso, diz.
Determinada a não aceitar limites pré-estabelecidos por terceiros, a publicitária resume a postura que adotou perante os desafios: Eu nunca aceitei receber um não nessa questão assim: ‘Ah, você não consegue porque você é PCD’. Eu vou tentar, afirma. Levar um não sem tentar nunca foi uma opção para mim.