Embaixador de Cuba vê laços firmes e agradece apoio do Brasil

As relações diplomáticas entre Brasília e Havana possuem raízes profundas o suficiente para resistir a eventuais alternâncias no poder. Essa é a avaliação do embaixador cubano no país, Víctor Manuel Cairo Palomo, que demonstrou confiança na manutenção dos vínculos bilaterais e expressou profunda gratidão pelos mantimentos enviados pelo governo de Luiz Inácio Lula da Silva à população da ilha caribenha.

Cenário político e estabilidade diplomática

Diante de especulações sobre os impactos de um eventual governo liderado por Flávio Bolsonaro (PL), o representante cubano preferiu desvencilhar o diálogo internacional de divisões puramente ideológicas. O histórico recente traz memórias de atrito: durante a presidência de Jair Bolsonaro, o Brasil chegou a rebaixar o nível de representação ao deixar a chefia da embaixada em Havana vaga, cogitou o rompimento formal de laços e abandonou a tradição de votar contra o bloqueio econômico internacional imposto ao país vizinho.

Ao abordar o tema eleitoral, Víctor Palomo enfatizou a soberania popular e a robustez da convivência construída ao longo das décadas:

“Brasil e Cuba têm uma relação histórica. Temos históricos vínculos culturais e isso é muito forte. O processo eleitoral do Brasil só corresponde ao povo brasileiro. E essa é uma pergunta hipotética [a mudança de postura com um novo governo], porque estamos partindo de um pressuposto que ainda não existe e que não depende de nós, depende dos que tomam decisões pelo Brasil. Mas eu acredito que nossas relações históricas são muito mais fortes que um tema específico”, disse.

Impactos do bloqueio e ajuda internacional

O quadro social em Cuba permanece delicado em decorrência das sanções econômicas norte-americanas vigentes desde 1962, implementadas no período da Guerra Fria. O endurecimento de restrições afeta bancos e parceiros internacionais, restringindo a modernização da infraestrutura do país e provocando sucessivas quedas no fornecimento de eletricidade decorrentes de um parque energético defasado e dependente de combustíveis fósseis.

Ao classificar o cerco externo como uma punição coletiva que culmina em crise humanitária, o embaixador ressaltou que a diplomacia brasileira mantém a postura histórica de rejeitar barreiras unilaterais não aprovadas pelo Conselho de Segurança da ONU. Como ação prática, o Brasil transportou 48 toneladas de leite em pó em agosto para abastecer os cubanos, com planos de enviar cargas de arroz e feijão por via marítima no mês de novembro.

“Nós temos recebido muita ajuda humanitária de diversos países. O México é muito importante, além de outros países da região, como o Brasil. Eu quero aproveitar esta oportunidade para agradecer profundamente ao povo brasileiro. Por estarem nos apoiando e pelo o que estão fazendo pelo povo cubano”, declarou.

Solidariedade além do governo

A colaboração com a ilha não se restringe aos canais governamentais ou entidades formais. Cidadãos brasileiros que viajam a turismo ou trabalho têm desempenhado papel significativo no socorro imediato às famílias locais.

“É muito emocionante quando um brasileiro viaja a Cuba e em suas malas tem medicamentos, sementes e coisas para doar ao povo cubano”, diz.

Com novos carregamentos previstos para os próximos meses, a cooperação técnica e humanitária segue como eixo central da aproximação entre as duas nações no cenário regional.

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