O jornal Folha de S.Paulo suprimiu quatro parágrafos que continham informações críticas sobre a atuação irregular do Grupo Fictor de uma reportagem publicada em 17 de novembro de 2025. A alteração ocorreu logo após o anúncio da tentativa de compra do Banco Master, em um contexto de pressão exercida pelo banqueiro Daniel Vorcaro sobre a cobertura da imprensa.
Supressão de dados e ausência de aviso ao leitor
A versão inicial da matéria veiculada no portal UOL detalhava que o grupo captava recursos por meio de uma sociedade oculta conhecida como SCP (sociedade em conta de participação), modelo que opera sem supervisão da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). O texto mencionava 11 SCPs ligadas à empresa com capital social de R$ 1,67 bilhão e trazia alertas de um especialista sobre os riscos da falta de fiscalização regulatória. Menos de duas horas depois, esses trechos foram retirados sem qualquer aviso de atualização aos leitores, alterando o horário oficial da publicação.
Investigação federal e desdobramentos judiciais
A Fictor acabou envolvida no escândalo após investigações da Polícia Federal apontarem que o grupo agiu em conjunto com Daniel Vorcaro em uma negociação de R$ 500 milhões para adquirir o Banco Master. Meses depois, em fevereiro de 2026, a empresa entrou com pedido de recuperação judicial com um passivo de R$ 4,2 bilhões e mais de 13 mil credores. Em agosto, a Justiça de São Paulo declarou nulos os contratos de SCPs firmados com milhares de investidores, considerando essas operações o núcleo do esquema investigado.
Crítica interna e justificativa oficial
Na época da publicação original, a ombudsman da Folha apontou que o veículo foi generoso demais com o conglomerado empresarial. Questionada sobre as remoções, a redação do jornal defendeu as mudanças por meio de nota:
“1. Por que a Folha apagou esses parágrafos, mudando substancialmente o teor da matéria?
A Editoria de Economia julgou ser necessário ouvir a CVM e explicar melhor a forma de captação de recursos da Fictor. O texto era um perfil do grupo que se declarava interessado em comprar o Master, não uma matéria de denúncia.
2. Houve algum pedido para retirar esses parágrafos? Se sim, de quem partiu e por quais motivos a Folha os acatou? Houve atuação de algum gestor de crises?
Não houve pedido para retirada dos parágrafos.
3. Por que, novamente, a Folha de S.Paulo deixou de informar aos leitores que suprimiu parágrafos importantes da reportagem? Isso é praxe do veículo de imprensa?
A praxe é informar em que dia e hora o texto foi atualizado. Os parágrafos retirados não eram importantes para o objetivo do texto: retratar o grupo que afirmava querer comprar o Master.”
O episódio levanta debates sobre as normas editoriais de transparência e o impacto de pressões externas em grandes veículos de comunicação do país diante de crises no setor financeiro.