Às vésperas de completar 93 anos, a capital de Goiás enfrenta um debate profundo sobre a preservação de sua identidade arquitetônica. A discussão ganha força com a revelação de inconsistências nos registros oficiais do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), levantando dúvidas sobre os critérios adotados para proteger o conjunto art déco da cidade.
Obras na Praça Cívica e os limites do tombamento
O coração político e simbólico da metrópole, a Praça Cívica abriga edificações fundamentais da fundação urbanística projetada por Attilio Corrêa Lima e desenvolvida com a participação de Armando de Godoy, após a decisão política de Pedro Ludovico Teixeira na década de 1930. Nesse cenário de grande valor histórico, o órgão federal aprovou em novembro de 2021 a instalação de estruturas do sistema BRT, incluindo uma estação em frente ao Museu Zoroastro Artiaga. Embora a autorização tenha exigido medidas de recomposição vegetal, a intervenção reabre o debate sobre como conciliar a modernidade com a integridade de áreas tombadas desde 2003.
Inconsistências no cadastro oficial do Iphan
A situação ganha contornos complexos ao analisar o Sistema Integrado de Conhecimento e Gestão (SICG). Na ficha oficial do acervo arquitetônico e urbanístico, identificada pelo código GO-5208707-BI-CU-00001, o Iphan apresenta avaliações totalmente divergentes para o mesmo conjunto. Enquanto os campos principais classificam o estado de conservação como ruim e a preservação como muito alterada, trechos adiante na mesma documentação apontam conservação regular e preservação pouco alterada.
Desafios para o centenário da capital
Especialistas reforçam que a salvaguarda de uma cidade não se resume a evitar demolições, mas exige transparência, fiscalização rigorosa e dados confiáveis. Com a proximidade do centenário em 2033, a discussão sobre o futuro urbano e a proteção dos edifícios históricos — como o Palácio das Esmeraldas, o Teatro Goiânia e a antiga Estação Ferroviária — torna-se imprescindível para garantir que a memória não seja apagada pelo avanço imobiliário.
A gestão do patrimônio urbano exige um esforço conjunto entre governos, proprietários e sociedade civil. Mais do que discursos comemorativos, a capital goiana demanda diagnósticos transparentes e políticas públicas eficazes para que o futuro não represente a destruição sistemática do passado.