Disputa histórica em Goiânia: duplicação da Rua da Divisa divide opiniões

A Rua da Divisa, situada no Setor Jaó, em Goiânia, concentra há quase duas décadas um intenso debate que envolve mobilidade urbana, segurança viária e preservação ambiental. Enquanto motoristas enfrentam congestionamentos diários e sérios riscos de alagamento durante o período chuvoso, órgãos de fiscalização e moradores divergem sobre a viabilidade da intervenção sobre os cursos d’água locais.

Novos passos da licitação municipal

A Prefeitura de Goiânia agendou para o dia 11 de dezembro a concorrência eletrônica voltada à contratação da empresa responsável pelo projeto executivo e pela execução das melhorias. Com um orçamento estimado em R$ 9,3 milhões, a intervenção planejada pela Secretaria Municipal de Infraestrutura abrange cerca de 1,13 quilômetro da via, compreendendo o trecho entre a sede do Tribunal de Contas do Estado de Goiás e a Avenida Sucuri.

O projeto atual engloba serviços de terraplanagem, nova pavimentação asfáltica, elevação do nível da pista e ampliação das redes de drenagem. A estrutura contará com galerias pluviais e um bueiro celular triplo para mitigar os transbordamentos recorrentes do Córrego Jaó. Contudo, a publicação do edital não garante o início imediato dos trabalhos, visto que o empreendimento ainda depende da superação de barreiras judiciais e ambientais acumuladas ao longo dos anos.

Divergências entre moradores e o Ministério Público

O histórico de impasses judiciais inclui ações do Ministério Público de Goiás questionando a dispensa de estudos de impacto ambiental detalhados, além de contestações da Associação dos Moradores do Setor Jaó. Parte da comunidade local argumenta que a abertura de um traçado alternativo, utilizando inclusive uma área cedida provisoriamente pelo Aeroporto Santa Genoveva, seria uma opção mais adequada para desafogar o tráfego pesado sem agredir a Área de Preservação Permanente.

Em contrapartida, lideranças políticas e comerciantes locais enfatizam a urgência das intervenções devido aos transtornos diários e aos perigos enfrentados por quem transita pela região. O vereador Anselmo Pereira defende a necessidade da obra na localidade: “O Jaó, quando foi lançado, não tinha toda essa conurbação em volta dele de atividades, inclusive atividades agora de governo, por exemplo, o TCE. Ele está na divisa do Jaó, mudou todo o pensamento da região. A abertura da rua da divisa hoje, que está quase por três quarteirões, é inevitável”

O parlamentar acrescenta que o projeto pode ser executado com segurança ecológica: “O que se precisa fazer é o alargamento, levantar o grid, proteger a bacia do rio que passa por baixo e não permitir uma circulação, uma mobilidade que venha prejudicar os moradores”

Relatos de riscos e prejuízos no cotidiano

O presidente da Associação das Empresas e dos Proprietários de Imóveis do Setor Jaó, Edson Gomes, reforça a gravidade da situação estrutural da via: “Aquela baixada ali, como está, ela é considerada pela Defesa Civil, e nós temos o laudo, como um local de alto risco de rompimento daquela barragem”

Ele também destacou as possíveis consequências de acidentes durante o período chuvoso: “Imagina uma pessoa nas chuvas, que agora vai começar inclusive o período chuvoso, a pessoa entra ali de noite e encontra um buracão. Vai causar acidente, vai morrer família. Então isso é uma medida urgente mesmo. Nós somos totalmente a favor da iniciativa da Prefeitura de Goiânia”

Comerciantes locais também sofrem com os reflexos do trânsito travado. Rita de Paula, que trabalha há mais de três décadas na região, aponta o impacto financeiro dos desvios obrigatórios: “Quando eu tenho que sair pra ir buscar mercadoria, por exemplo, se eu tiver que ir ao Ceasa, ali tem horário que você não passa. Aí você tem que dar a volta pelo Guanabara, ir pra fazer as compras e voltar. É um custo a mais”

Na mesma linha, o vendedor Joel Soares relata os transtornos provocados pelas fortes chuvas: “Passo ali na madrugada e na parte da tarde. Ali a questão é a chuva. Que alaga tudo e fica impossível passar. Às vezes, eu tenho que rodear lá no Santa Genoveva, chega até atrasado aqui”

Para o morador Davi Pena, o progresso urbano e a conservação da natureza podem caminhar juntos na região: “Há uma turma que quer preservar, outra turma que quer o desenvolvimento. Mas consegue-se desenvolver, preservando”

Ele reforça os perigos enfrentados no dia a dia: “Porque o problema ali é o grande fluxo de veículos, quando chove o córrego sobe. Ela fica intransitável. Alagada. Tem até risco de vida ali”

A motorista Esmerinda Dias resume o sentimento de quem depende do trecho nos horários de pico: “Todo dia passo para lá e para cá. Na volta, quando é horário de pico, é uma tortura. Tudo travado”

Ela complementa sobre os incidentes frequentes com veículos de grande porte: “Quebra caminhão quase todo dia. Aí, você tem que ficar parada porque não tem como sair e fica presa, atrapalha a rotina”

Enquanto a data da licitação se aproxima, o futuro da Rua da Divisa permanece no centro de um debate complexo, dividindo autoridades, defensores do meio ambiente e cidadãos que cobram soluções definitivas para a mobilidade e a segurança do Setor Jaó.

Deixe um comentário