A Equatorial Goiás emitiu 43.789 notificações por irregularidades na ocupação de postes em Goiânia desde 2024, mas falhou em comprovar quantas dessas situações foram efetivamente solucionadas. O dado faz parte do relatório final da Comissão Especial de Inquérito (CEI) dos Fios Soltos da Câmara Municipal, aprovado no final de setembro de 2026.
Diferença entre notificar e resolver
O abismo entre emitir um alerta e garantir a regularização dos cabos tornou-se o eixo central da apuração dos vereadores. A comissão questionou a eficácia dos métodos empregados para fiscalizar a fiação de internet e telefonia na rede sob responsabilidade da distribuidora. Além disso, o documento sugeriu a apuração de responsabilidades da concessionária e de seu diretor-presidente, Lener Silva Jayme, por eventuais omissões na manutenção dessa infraestrutura.
Embora a empresa disponha de instrumentos para exigir correções das prestadoras de telecomunicações, a investigação concluiu que tais mecanismos não foram aplicados com o rigor necessário para combater cabos clandestinos ou abandonados. Um reflexo disso é a baixa adesão das empresas do setor: das 112 cadastradas na capital, apenas sete integravam os programas de alinhamento e manutenção da fiação.
Multas municipais e impacto de acidentes
No âmbito da prefeitura, dados divulgados pela Secretaria Municipal de Eficiência registraram 332 autos de infração entre junho e outubro de 2025, totalizando cerca de R$ 6 milhões em multas. No entanto, o montante autuado não assegura a arrecadação ou a remoção imediata do risco. A pauta ganhou urgência máxima após a morte de Nathaly Rodrigues do Nascimento, de 17 anos, vítima de um choque elétrico provocado por um cabo rompido no Centro em setembro de 2025.
O relatório, com mais de 100 páginas, foi encaminhado ao Ministério Público, à Polícia Civil, à Aneel e à Anatel. Paralelamente, a CEI elaborou uma proposta de Código Municipal de Gestão da Infraestrutura Aérea Urbana, prevendo multas de até R$ 40 mil e a criação de uma força-tarefa para monitorar pontos críticos e retirar materiais ociosos — contexto que em 2026 já contabilizava 90 toneladas de cabos recolhidos pelo programa Cidade Segura.
A defesa da concessionária
Em depoimento prestado à Câmara em março, o presidente da Equatorial ponderou que a remoção cega de cabos poderia derrubar serviços essenciais de hospitais e escolas devido à falta de identificação nas redes. Após a aprovação do relatório, a companhia emitiu nota reforçando que as recomendações parlamentares não configuram indiciamento criminal.
NOTA À IMPRENSA
“A Equatorial Goiás informa que prestou esclarecimentos à Comissão Especial de Inquérito (CEI) da Câmara Municipal de Goiânia em oitiva presencial, com duração de aproximadamente três horas, e por meio de respostas escritas e manifestações complementares encaminhadas aos autos, de forma técnica, transparente e colaborativa.”
A distribuidora acrescentou que o documento não formaliza condenação e que continuará colaborando com os órgãos competentes. Sobre o acidente fatal, a empresa argumentou que o caso difere das irregularidades de telecomunicações e destacou que um laudo da Polícia Científica atribuiu a ocorrência a um vendaval severo que atingiu Goiânia.
A fiscalização dos postes e o destino das cobranças continuam sob escrutínio rigoroso, enquanto a população aguarda soluções definitivas para o emaranhado de fios que toma conta das ruas goianienses.