O custo de vida na capital de Goiás atingiu um patamar alarmante para quem vive com o piso salarial. O conjunto de mantimentos essenciais alcançou R$ 808,01 em setembro, acumulando um salto de 13,72% em apenas um ano. Esse cenário de encarecimento é impulsionado tanto por fatores climáticos e logísticos locais quanto por turbulências econômicas internacionais que afetam a cadeia de suprimentos.
Impacto direto no orçamento familiar
De acordo com levantamento do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), o valor da cesta básica apresentou alta de 4,54% entre agosto e setembro. Para adquirir os 13 itens obrigatórios da pesquisa, o cidadão que recebe o salário mínimo de R$ 1.621 teve de cumprir uma jornada de 109 horas e 40 minutos de trabalho.
Na prática, o gasto representou 53,89% da renda líquida do trabalhador. O montante restante precisa suprir obrigações fundamentais como moradia, contas de água e luz, deslocamento urbano e tratamento de saúde.
O economista Marcelo Marques aponta que a dinâmica afeta diretamente o poder aquisitivo da população:
“Quando a cesta básica aumenta mais que o salário, o trabalhador perde poder de compra. O problema não é apenas pagar mais caro no supermercado. É preciso retirar dinheiro de outras despesas para garantir a alimentação. E esse impacto é maior entre as famílias de menor renda”, disse ao Mais Goiás.
Vilões da inflação e oscilações no campo
Os hortifrútis lideraram as pressões sobre o orçamento dos consumidores goianienses. Nos últimos 12 meses, a batata disparou 77,78% e o tomate acumulou alta de 70,20%. Somente no mês de setembro, o tomate registrou acréscimo de 38,48%, enquanto a batata encareceu 26,70%.
Por outro lado, alguns gêneros alimentícios registraram recuo no período, a exemplo do feijão carioca, que barateou 4,92% em setembro, e da farinha de trigo, com queda de 2,63%.
Marcelo Marques explica que as flutuações ocorrem devido à vulnerabilidade dos produtos perecíveis:
“O tomate e a batata são exemplos de produtos muito sensíveis às condições climáticas e à oferta. Quando uma região produtora enfrenta problemas na safra, a quantidade disponível pode diminuir e os preços reagem. Por isso, alguns alimentos sobem muito em poucas semanas, enquanto outros apresentam redução”, analisa.
Fatores internacionais e a inflação local
A pressão sobre os alimentos não é um fenômeno isolado do território brasileiro. A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) apontou elevação de 5,8% nos preços globais no acumulado de 12 meses até setembro, impulsionada por gargalos logísticos e questões climáticas adversas.
O economista detalha de que maneira conflitos externos alcançam o mercado interno:
“Uma guerra pode acontecer a milhares de quilômetros de Goiânia e, mesmo assim, afetar o preço dos alimentos. Se o conflito encarece o petróleo, aumenta o custo do transporte. Se compromete o fornecimento de fertilizantes, o produtor pode gastar mais para plantar. Esses custos percorrem a cadeia produtiva até chegar ao consumidor”, detalha.
Apesar disso, Marques ressalta que o cenário interno possui peso expressivo na formação dos preços:
“Não podemos atribuir toda a inflação dos alimentos às guerras. O Brasil também enfrenta fatores internos, como clima, safra, logística e custos de produção. O consumidor sente a combinação dessas pressões, e não apenas uma causa isolada”, disse.
No âmbito regional, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) destacou que Goiânia fechou setembro com inflação geral de 1,07%, superando a média nacional de 0,82%. No segmento específico de alimentação e bebidas, o índice local atingiu 1,51%, demonstrando uma velocidade de alta superior à média do país.
Perspectivas para o futuro econômico
Diante do cenário, o especialista enfatiza que o recuo na inflação não representa, necessariamente, uma baixa imediata no valor pago nas prateleiras, mas sim uma desaceleração no ritmo de reajustes.
“Quando a inflação diminui, isso não significa necessariamente que a comida ficou mais barata. Pode significar apenas que os preços continuam subindo, mas em ritmo menor. Para o consumidor, o alívio real ocorre quando o custo dos alimentos recua ou quando a renda aumenta acima dos preços”, pontua.