O Centro de Goiânia não está morto. Convém esclarecer isso antes que alguém resolva providenciar o atestado de óbito e transformar o velório em mais um projeto de revitalização urbana. A região continua movimentada, abrigando milhares de pessoas que trabalham, compram e caminham por suas ruas diariamente, mantendo viva uma economia popular que resiste à decadência anunciada.
A perda da centralidade e a transformação urbana
Embora mantenha sua relevância cotidiana, o território perdeu o status de endereço principal da capital. Criada na década de 1930 pelo urbanista Attilio Corrêa Lima, a cidade foi projetada com foco na Praça Cívica e na Avenida Goiás, tornando-se rapidamente um polo de sociabilidade impulsionado por marcos como o Grande Hotel e o Teatro Goiânia. Com a forte expansão demográfica e a chegada dos shopping centers nas décadas seguintes, o perfil de consumo mudou, e a região passou a ser vista prioritariamente como local de passagem.
O programa Morar no Centro e os novos desafios habitacionais
Diante de sucessivas gestões que prometeram melhorias sem entregas duradouras, o poder público instituiu em setembro de 2026 a Lei Complementar nº 391. O programa Morar no Centro busca incentivar a ocupação residencial por meio da recuperação de imóveis desocupados e da adaptação de antigos hotéis. Contudo, especialistas alertam que a medida precisa vir acompanhada de inclusão social para evitar a substituição forçada dos atuais frequentadores e moradores locais.
O papel do núcleo histórico no centenário da capital
Completando 93 anos e caminhando para o centenário em 2033, a capital goiana enfrenta o desafio de reintegrar sua infraestrutura consolidada às políticas habitacionais, culturais e econômicas. O objetivo não é retomar a exclusividade de antigamente, mas garantir a conservação e a reocupação da área por meio de continuidade administrativa e forte senso de pertencimento comunitário.
Aos 93 anos, a cidade precisa responder a uma questão fundamental sobre sua própria identidade e planejamento futuro, garantindo que sua área fundadora receba a atenção proporcional à sua relevância histórica antes de celebrar cem anos de história.