Marcado por avenidas planejadas e edifícios históricos, o Setor Central foi o ponto de partida da história de Goiânia. Ao celebrar 93 anos em 24 de outubro, a capital goiana redescobre em seu berço urbanístico um cenário de transformações e novas alternativas para a habitação urbana, unindo o passado de modernização da década de 1930 a um movimento contemporâneo de valorização residencial.
Evolução demográfica e novos incentivos
Projetada inicialmente para abrigar cerca de 50 mil pessoas, a cidade experimentou um salto populacional expressivo ao longo das décadas, registrando 1.437.366 moradores no Censo de 2022 e estimativas de 1.511.709 habitantes em 2026, segundo dados do IBGE. Com a expansão urbana e o surgimento de novas centralidades, o Setor Central passou por oscilações demográficas, caindo de 31.393 residentes em 1991 para 24.204 em 2010, antes de retomar o crescimento e alcançar aproximadamente 29 mil moradores em 2022.
Para o engenheiro civil Ricardo Maciel, sócio-diretor e diretor técnico da SIM Incorporadora, a trajetória do Setor Central acompanha as mudanças vividas pela própria capital.
“Vejo essa transformação como um reflexo do próprio crescimento de Goiânia. Com a expansão urbana e o surgimento de novas centralidades, parte dessas atividades e da procura por moradia se deslocou para outros bairros. Isso trouxe desafios de conservação e ocupação, mas não apagou a relevância da região”, explica.
O cenário atual é impulsionado por mudanças na legislação, como o Plano Diretor de 2022 e o Programa Morar no Centro, aprovado em 2026, que oferece isenção de IPTU por até dez anos e benefícios tributários de ITBI e ISSQN para empreendimentos voltados à habitação e requalificação de imóveis.
Retorno residencial e o impacto na economia local
A iniciativa privada tem respondido a esse momento com novos projetos imobiliários. Um exemplo é o Katedral Sky Rooftop, construído pela SIM Incorporadora na Rua 20 em uma área onde antes funcionavam um terreno vazio e um hospital abandonado. Entregue em 2024 com 156 unidades, o residencial atendeu a uma demanda reprimida ligada à memória afetiva de antigos moradores.
Para Paulo Silas, sócio da SIM Incorporadora, o empreendimento também revelou a existência de uma demanda residencial ligada à memória afetiva dos antigos moradores da região.
“Além de trazer uma ocupação para um espaço subutilizado, o empreendimento atraiu muita gente que já havia morado no Centro e tinha vontade de voltar para o bairro. Faltava apenas uma oportunidade”, destaca.
O retorno dos habitantes também fortalece o comércio local. O Centro ocupou a quinta posição entre os bairros da capital com mais novos negócios entre janeiro de 2025 e fevereiro de 2026, conforme a Sedicas. Com o adensamento populacional, a expectativa é dinamizar o consumo cotidiano e a frequência nos espaços públicos fora do horário comercial.
Patrimônio histórico e preservação
Todo o processo de renovação ocorre em sintonia com a proteção do patrimônio cultural. Em 2003, o Iphan tombou o conjunto Art Déco de Goiânia, que reúne 22 edifícios e monumentos públicos como o Palácio das Esmeraldas, o Teatro Goiânia, o Grande Hotel e a Torre do Relógio. A Portaria nº 201, publicada pelo órgão em 2024, estabelece diretrizes para orientar intervenções na área.
Para Ricardo Maciel, novos investimentos precisam reconhecer essa responsabilidade.
“A preservação não deve ser vista como impedimento à transformação, mas como um elemento orientador de projetos mais qualificados. Também é importante estimular a recuperação de edifícios existentes, a adaptação para novos usos e a manutenção de referências que fazem parte da memória da cidade”, afirma.
Aos 93 anos, Goiânia demonstra que a requalificação de seu núcleo pioneiro é um caminho viável para unir desenvolvimento urbano, memória afetiva e novas oportunidades para a população.